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Página:A infanta D. Maria de Portugal e suas damas.djvu/53

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E quando mais tarde recordava o tempo passado, os treze annos que por junto vivera no paço figuravam-se-lhe não só como de muito assiduo trabalho (sedule servitutis) mas de pesada servidão (onerosa servitutis). [1] A ella, ao pae e á irman.

Juntos retiraram afinal para Torres Novas (1555). Não sei se a contento dos soberanos ou contra o desejo d'elles, como penso. Em todo o caso, ainda dependiam da côrte. Luisa teve de sollicitar o regio consentimento, quando após um triennio de descanso resolveu casar e regressar á patria, quer fosse nos ultimos dias de D. João III, quer nos primeiros da regencia de D. Catharina.

Nesse momento em que, jubilosa, liberta, imagina ter attingido a felicidade, alguma cousa de amargo surge no seu caminho. O sunt lacrymæ rerum do poeta revela-se à sua consciencia. Com orgulho, conscia de ter prestado serviços, e de estar fóra das fileiras (extra aliorum alcam posilam) espera receber o premio devido (sat debita praemia), premio que a eximisse para sempre da lucta pela vida [2]. Quando lh'o negam, lamenta-se, por amor ao dulcissimo conjuge [3] Repugna-lhe ser um encargo a D. Francisco de Cuevas, fidalgo castelhano, letrado mas pobre, em logar de o fazer participe dos louros e da gloria que sonhara. Repugna-lhe não ter valia bastante para melhorar a situação dos irmãos. [4] Em Valladolid e Burgos redige cartas e memoriaes a Felipe II, Paulo IV [5], D. Maria de Bohemia e Hungria. Essa concede-lhe espontaneamente o posto honroso de latina em sua casa, e ao marido o de secretario particular. Mas o infortunio persegue-a. Ao cabo de poucos meses, a generosa e energica irman da Rainha D. Leonor fallece (1558). Novamente sem meios sufficientes, Luisa expõe ao rei de Hespanha o que é e fez, o que soffre e pretende. Emquanto este se dispõe a contentá-la, tem a suprema ventura de se sentir mãe. Mas ao apertar a primeira vez a filhinha contra o coração, exhala o ultimo suspiro (13 de Out. de 1560) [6]. Com apenas trinta annos, sem ter chegado ao mezzo del cammin [7]. Rica em trabalhos e em encomios, que o leitor, já ensinado pelos muitos exemplos que accumulei, vae adivinhar: Minerva do seu tempo, Christiana Cynthia, decima Musa [8], gloria do seu sexo, seu tempo, seu paiz. Mais valioso do que taes epithetos, mais significativo que os solemnes necrologios, as sentidas elegias que os amigos lhe dedicaram é o ultimo adeus do marido á esposa, cuja rara erudição só era ultrapassada pela sua suave candidez. Vale, beata animula. Adeus, bemdita alminha [9].

Ao passo que na peninsula redigem epicedios [10] e epitaphios [11], um francês, relacionado com Diogo Sigeo, resolve tornar conhecida na sua patria a maior polyglotta do mundo. E' Nicot, o da Nico-

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  1. 170 E' numa epistola intima a seu cunhado Alonso de Cuevas que se lêem as expressões citadas.
  2. 171 De varias cartas transpira a consciencia que tinha da sua nobreza scientifica, a qual obriga tanto como a do sangue. Para todos os seus requer aquella condição que convém aos irmãos e ao esposo de Sigea, a Polyglotta.
  3. 172 Vid. Nota 170.
  4. 173 De dois irmãos seus, o mais velho, educado com ella, havia estudado theologia em Alcalá e Coimbra; o mais novo estava em Roma, em companhia de Gaspar Barreiros, desejoso de alcançar um emprego, junto da curia.
  5. 174 Enganam-se os que crêem destinada a Paulo III (Farnese) a carta escrita em Julho de 1557. Este morreu em 1549. Paulo IV (Caraffa) occupou a Santa Sé de 1555 a 1559.
  6. 175 Na sentida inscripção tumular do marido não ha data. Tão pouco no epitaphio do francês Claude Monseau, nem na que foi elaborada em Portugal por André de Resende. As que indico acham-se exaradas no epitaphio litterario, composto por Juan de Merlo (port. Mello, lat. Merulus), coevo, patricio e amigo de Diogo Sigeu. (Vid. Nic. Ant. e Gallardo, Ensaio N.° 1494). Alguns auctores pensam que Luisa morreu em 1561, fiados nas palavras do Arcediano de Alcor, que a deu por viva ainda nesse anno. O facto de as homenagens funebres de Resende terem sahido em 1561 não é decisivo para a data 1560. O robusto ancião trabalhava com desembaraço tal, e a sua veneração pela Heloisa portuguesa era tão férvida que, sabendo do seu passamento em principios de Novembro, o resto do anno chegava para elle compor e fazer imprimir a sua concisa commemoração (quatro folhas apenas): Ludovica Sigaa Tumulus L. Andrea Resendio Auctore. Apud Hæredes Germani Galiardi, An. M. DLXI. Olyssippone. Venalis apud Iohnnem de Borgo. Regium Bibliopolam in vico novo. Nicot as reimprimiu em 1566.
  7. 176 O algarismo está fóra do seu logar. As palavras «rica em trabalhos e em encomios» é que se refere esta minha glosa sobre as riquezas de Luisa. Lá fóra não quiseram acreditar que em Portugal os governantes lhe faltaram com a justa remuneração. João de Mello, o de Toledo, citado em a Nota anterior, — auctor de uma collecção de proverbios — rematou o seu epitaphio com a sentença: «Toledo lhe deu a vida; a Lusitania honras e riquezas (Lusitania honores et divitias dedit); Burgos o marido, a filha, o coval.» E essa fama voou. Vejo-a assentada p. ex. na Italia et Hispania Orientalis de Paulo Coloma (1730), que affirma: non modicas opes ex regali munificentia sibi paravit.
  8. 177 Nem todos os panegyristas se conformaram com este titulo. — E' curiosa a opposição de Resende. No dithyrambo sincero em que exalta os meritos da Sigea, são as nove Musas que choram o seu fim prematuro. Mais ainda porém, o facto... de não a poderem admittir no seu côro virginal! Para que tambem se lembrou ella de casar? Tres vezes entoam o estribilho:

    Et nisi virgineum thalamus violasset honorem
    Hac ultra noster cresceret ordo novem!

  9. 178 Eis o epitaphio expressivo, gravado em doze linhas de estylo lapidar na sepultura de Luisa pela mão do esposo: D. O. M. | Loisia Sigaa Foemina | Incomparabili | Cujus Pudicitia cum Eruditione | Linguarum | Qua in ea ad miraculum | Usque fuit Ex aquo certabat | Franciscus Cuevas Moerentiss. | Conjugi B. M. P. Vale Beata Animula. Conjugi | Dum vivet |Perpetua lachryma.
  10. 179 Varios estão colligidos. Outros continuam ineditos. Tenaionava publicar aqui a Elegia de Pedro Lainez, que principia:

    Si de triste licor tan larga vena,
    Musa llorosa mia, has derramado,

    segundo os Mss. Paris. 598 f. 99 e 603, f. 135. Sabendo todavia á ultima hora que um douto hespanhol havia encommendado um treslado, afim de o publicar na Revue Hispanique VII, desisti do meu intento. Falta-me descobrir um soneto de uma dama italiana, mencionado por Faria e Sousa, sem informações que facilitem a procura.

  11. 180 O melhor de todos é o de Resende. Traduzido diz: Aqui jaz Sigea. Isto basta. Quem ignora o resto, necessitando explicações, é barbaro, avesso ás boas artes. Quanto ao logar onde jaz, mal se pode duvidar que seja Burgos. A lenda conta que Luisa desejou dormir em terra portuguesa e que a familia a tresladou para o Carmo de Torres Novas. Essa lenda nasceu a meu ver do facto que entre os descendentes de Angela houve outra Luisa Sigea, ahi enterrada no jazigo dos Mellos. — Cf. Carvalho, Corografia Portuguesa III 284 e 287.