tugal, ou ao privado do Senhor D. Duarte. Regra tal que o Camões lhe deu tres entendimentos, accompanhados de uma cartinha primorosa. Se forem bons, é mote de V. M., se forem maos são as glosas minhas. [1]
Innumeras trovas ha relativas a successos e accidentes occorridos na sala dos Serões ou nos gyneceos da côrte.
Em geral não levam indicação do nome da dama. [2] Sirva de exemplo, por bons motivos que logo se revelarão, uma que faz excepção á regra, pois leva o subscripto A. D. Guiomar de Blasfé, queimando-se com huma vela no rosto:
Amor que todos offende
teve, senhora, por gosto
que sentisse o vosso rosto
o que nas almas acende.
A juntar-se a Terpsichore, Erato, Polyhymnia, Euterpe, ou a substituí-las, porque a variação deleita, descia ás vezes do Parnasso ás salas da Ribeira, Thalia, a gentil musa da comedia. Possuímos um epigramma a uma menina que em traje de cavalleiro, de capa e espada, matante de olhos e graça, havia feito o papel de Matante. [3] As damas haviam representado uma comedia entre si, amestradas — a hypothese é licita — por Paula Vicente, mas não em reclusão tão absoluta, que o Camareiro pelo menos não as tivesse visto e admirado, se elle tudo esquadrinhava!
Nesses ensejos, e mesmo nos verdadeiros saraus, algumas damas versejavam tambem. Lembro aquella Leonor de Mascarenhas que deu a replica a Bernardim Ribeiro e Sá de Miranda, nos tempos de D. Manuel e D. Leonor. [4] Os motes, apresentados sempre como inspirações livres, tal-qual os improvisos dos cantadores e das cantadeiras, eram ás vezes momentâneas, ás vezes adaptações e variantes de outras composições conhecidas, ás vezes simples repetição de um provérbio, ou fragmento de outra canção.
Pena é que tantas coisas de folgar e gentilezas pertençam ao rol das pérolas perdidas!
E a Infanta ?
Já sabemos que era pouco expansiva. Receando indiscripções preferia ouvir e callar. Obrigada a pairar intangível nas alturas, aceitava homenagens e galardoava talentos. Comprehende-se bem que, mesmo muito nova, desdenhasse entrar em concorrência com as mais damas, a não estar certa de merecer a palma. Quando muito, faria entrever que, se quisesse, bem poderia ter levado de vencida as56
- ↑ 254 Para não injuriar o leitor, dando ao mesmo tempo prova de pedantismo, supprimo as referencias ao logar onde é que se acham impressos os versos de Camões.
- ↑ 255 Abrindo à toa o volume das Redondilhas de Camões, «maravilhosas» no dizer do grande Lope de Vega, encontramos a cada passo versos dirigidos a damas sem nome: Carta a uma dama — A uma dama doente — A uma dama vestida de dó — A uma senhora que estava resando — A uma senhora que lhe mandou pedir obras suns — A uma dama que lhe virou o rosto — A uma que lhe deu uma penna, etc., etc. Quasi todas são decididamente palacianas e pertencem ao curto periodo aulico do poeta. Outras, bem diversas, levianas e estouvadas, de linguagem menos culta, foram, parece, escriptas quando, depois da grande crise da sua vida, banido do paço, procurava aturdir as magoas do coração, embriagando-se sensualmente em amores faceis.
- ↑ 256 Caminha, N.° 513.
- ↑ 257 Sá de Miranda, N.° 51 e 52: Ás Damas, estando ahi dona Lianor Mascarenhas. Cf. Nota 31.