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Página:A infanta D. Maria de Portugal e suas damas.djvu/72

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teem apenas a rubrica A’ morte de D. Maria, abstrahida do texto, e que nada explica. Dois dizem porém explicitamente: A’ D. Maria de Tavora, Filha de Luiz Alvares de Tavora. E essa Maria de Tavora, Dama da Rainha D. Catharina, bella entre as mais bellas, morreu de facto de pouca idade, e inesperadamente, sendo chorada por mais de um poeta aulico — como Pedro de Andrade Caminha [1] e Felipe de Aguilar (Bocanegra), [2] tio da Natercia do Camões.

Isso basta, creio. Resta explicar quem se lembrou de affirmar que dona Maria era a Infanta dos Serbes e de retocar o soneto neste sentido, pondo a gran Maria [3]. Quem, senão o phantasioso Faria e Sousa? fecundo polygrapho, colleccionador incansavel, e um benemerito como commentador e biographo de Cambes, apesar dos gravissimos senões que deturpam a sua physionomia porque in maiorem Camonii gloriam attribuia ao seu poeta todas quantas poesias quinhentistas, editas ou ineditas, podiam fornecer mais uma nota para a Vida, mais uma pedra preciosa engastada na sua corôa de poeta? editor sem consciência que emendava os textos a sabor do seu gosto e dos seus fins ?

Avido de relacionar o Poeta com reis, principes e magnates, Faria e Sousa resolvera attribuir-lhe um poema sacro que um dos melhores quinhentistas, e por isso um dos mais saqueados e calumniados, havia offerecido á Infanta. Para authenticar a novidade precisava provar relações entre Camões e a princesa. Eis o motivo que o levou a transformar o soneto A‘ morte de D. Maria de Tavora num Soneto á morte da Infanta D. Maria, o qual soneto pela sua vez serviria para tornar aceitavel as suas affirmações sobre o Poema. Um circulo viciosissimo, como se vê. Um genio independente, fogoso, altivo como o creador da epopeia nacional, certamente levantava a voz apenas quando o furor divino o impellia, e não honrava, depois de morta, uma dama que não tivesse venerado com affecto sincero em quanto vivia. De mais a mais, em 1577, nos últimos arrancos seus e da nação, e na linguagem que vimos. [4]

O caso do Poema é mais complexo.

Diogo Bernardes havia publicado no anno 1594 — note-se bem, 14 annos depois da morte de Camões, e 17 depois do fallecimento da Infanta! — num volume inteiro de versos sacros, seus, intititulado Varias Rimas ao Bom Jeitos — uma Historia de Santa Ursula, dirigida á Infanta D. Maria, conforme manifesta na oitava quarta:

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  1. 265 Epigramma XXI da Ed. Academica, tambem em dialogo.
  2. 266 Impresso nas Poesias de Sá de Miranda N.° 122. Confira-se p. 420 e 841, Nota 9.
  3. 267 Talvez se lembrasse da Oitava de Montemór: Mirad, ninfas, la gran doña Maria.
  4. 268 As variantes do texto de Faria e Sousa, comparado com os impressos antigos e manuscriptos existentes, teem todo o caracter de emendas arbitrarias. Na 2.a quarteta relevou, como era de esperar, a pergunta: Como ficou sua luz? referindo-a ao convento e hospital da Luz!