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Página:A infanta D. Maria de Portugal e suas damas.djvu/74

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passou a ser roubador. Opinando que versos tão limpos, altos e affectuosos não podiam ser senão do Principe dos Poetas, reivindicou para este o direito de propriedade. E para que ninguem se maravilhasse de que durante meio seculo não houve quem desse pela falsidade de Bernardes, principiou afoitamente o seu libello com uma summaria declaração, absolutamente gratuita «bebida no ar», segundo o dicto allemão, affirmando que «sempre foi opinião constante dos que sabiam julgar de estylos que as Oitavas á Santa Ursula foram escriptas por Luis de Camões», mas que elle Faria, profundo conhecedor de mais de quatrocentos poetas, não precisava attender aos dizeres de ninguem para reconhecer a garra do leão no dito Poema. Está claro que o transformou e «melhorou» a seu bel-prazer. [1]

Fechando o parenthese, em que tentei desarreigar falsas convicções, vou finalmente nomear a dama que, pertencendo ao paço da Infanta, constituiu um elo pessoal e directo entre a Academia das eruditas e o Poeta, durante o curto periodo da sua aceitação na aula regia, isto é entre 1543 e 1549, antes do desterro a Ceuta, motivado pelos seus desmandos.

Fallo de D. Guiomar de Blasfé (Blasfeldt), a gentil donzella que ao ligeiro accidente de ter queimado as pestanas e a face com uma vela de cera, deve a gloria de ter sido cantada pelo grande artista lyrico, em duas composições diversas. E' a primeira um Soneto galante e culto:

O fogo que na branda cera ardia,
vendo o rosto gentil que na alma vejo,
se acendeu d'outro fogo do desejo
por alcançar a luz que vence o dia.
Como de dous ardores se encendia,
da grande impaciencia fez despejo
e remetendo com furor sobejo
vos foi beijar na parte onde se via.
Ditosa aquella flamma que se atreve
apagar seus ardores e tormentos
na vista de que o mundo tremer deve!
Namoram-se, Senhora, os elementos
de vos, e queima o fogo aquella neve
que queima corações e pensamentos.[2]

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  1. 274 Com relação ao Poema de Santa Ursula consultem Storck, Vida § 139 e Sämtliche Gedichte vol. III, 362 ss.
  2. 275 Ed. 1595 N. 34. No Cancioneiro Juromenha ha uma epigraphe certamente secundaria, pois não indica o nome da destinataria: Soneto de Luis de Camões a uma senhora que por desastre se ateou o foguo de uma vella a sua face ou testa.