A segunda é o Mote anteriormente citado, cuja volta diz:
Aquelle rosto que traz
o mundo todo abrasado,
se foi da flamma tocado,
foi porque sinta o que faz!
Bem sei que Amor se lhe rende;
porém o seu presupposto
foi, sentir o vosso rosto
o que nas almas acende.
Ambas, puramente afectuosas, sem ironias nem allusões ao sentido metaphorico da phrase que tão bem quadrava a uma discipula de Luisa Sigea e Joanna Vaz, mostram que as graças reinavam conjuntamente com as musas no palacio de D. Maria.
Neta de Francisco de Guzman e de D. Joanna de Blasfé, que serviu de amiga maternal á Infanta desde os seus mais tenros annos, D. Guiomar foi creada no paço da Infanta, [1] como o fôra sua mãe, D. Maria Guzman. Com D. Francisco Coutinho, o pae, aquelle illustre Conde do Redondo, que governou a India de 1561 a 1564 (um dos homens de sala mais gabados e de que correm uma infinidade de dictos alegres, um dos quaes contei ao leitor), sustentou o Camões expatriado relações intimas. A elle dedicou por tres vezes trovas de folgar [2]; uma vez a glosa de um Mote significativo que o proprio Conde havia apontado ao Poeta [3]; e além d'isso uma bellissima Ode. [4]
Em vista d'esta pequena descoberta [5], alguns tenues indicios, que sem ella de nada valiam, ganham superior importancia. Considero como taes a paraphrase anonyma do Mote que attribuo á Infanta: Já não posso ser contente. Duas composições sobre o thema popular:
Perdigão perdeu a penna,
não ha mal que lhe não venha,
applicado, se a tradição não mentir, a D. Jorge da Silva e á sua lendaria paixão pela Infanta. Em terceiro logar, certas voltas de Camões a dois themas diversos, colhidos, sem duvida alguma, durante o periodo aulico, num livro português, dedicado a D. Maria por um seu devoto fervoroso, e muito lido, não só no circulo das suas damas, mas especialmente na casa em que o Vergilio lusitano vivia em Lisboa.
Fallo do Palmeirim de Inglaterra de Francisco de Moraes,
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- ↑ 276 Vid. Pacheco f. 92 v. — Com respeito à filiação de D. Guiomar consulte-se a Hist. Gen. X 68 e Couto, Decada VII, 10, 17. D. Guiomar casou com D. Simão de Meneses, senhor de Louriçal. Sua irman D. Juana de Gusman, consorciou-se com Ruy Gonçalves da Camara, 1. Conde de Villafranca; a terceira, D. Isabel Henriques, com D. Affonso de Lencastre. — A respeito dos paes, D. Maria de Blaesvelt e D. Francisco Coutinho, 3.o Conde do Redondo, vid. Braamcamp, Brasões II 461. D. Luisa de Guzman, irman de D. Maria, casara com D. Affonso de Portugal, 2.° Conde do Vimioso (ib. 462).
- ↑ 277 Conde cujo illustre peito — Que diabo é tão danado — Vossa Senhoria creia.
- ↑ 278 Muito sou meu inimigo.
- ↑ 279 Ode VIII: Aquelle unico exemplo.
- ↑ 280 As indicações de Faria e Sousa nas Rimas 187 são inexactas e teem até hoje enganado todos os commentadores e biographos.