Página:A morgadinha dos canaviais.djvu/108

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por modo de vida as devoções da igreja, onde ia chorar as desgraças da humanidade, que tão fóra via andar da estrada direita.

Augusto pouco se demorou n’esta sala; respeitando a alcova conjugal, que era vedada aos olhares profanos por uma colcha de chita de largas e folhudas ramagens, tomou pelo corredor, que conduzia á cozinha d’onde lhe continuava a chegar aos ouvidos o som de vozes, que primeiro o attrahira.

Ao contrario do que esperava, porém, só uma pessoa encontrou na cozinha, comquanto falasse com a vivacidade que em poucos diálogos se mantem.

Esta pessoa era o dono da casa, o sr. José do Enxerto, où vulgarmente chamado ti’ Zé P’reira—­nome que lhe vinha do popular e ruidoso instrumento, o classico zabumba, que nas nossas aldeias tem ainda hoje aquelle nome.—­Era muito para vêr e admirar a mestria, com que o nosso homem o sabia tocar nas festas e arraiaes, á frente das procissões e cêrcos, e finalmente em todas as solemnidades publicas.

O ti’ Zé P’reira era homem dos seus quarenta e tantos annos; tinha no rosto, principalmente no nariz, vestigios evidentes das suas sympathias pela divindade celebrada nos antigos dithyrambos. Esposo da sr.^a Catharina do Nascimento de S. João Baptista, vivia em pérenne sabatina com a sua cara metade, sujeitando-lhe todas as suas acções, mas salvando sempre o direito de protestar pela palavra. Ganhava a vida no officio de hortelão e, aos domingos e dias de festa, á fôrça de rufos e pancadaria na retesada pelle do seu companheiro inseparavel—­o zabumba. Era aos cuidados e vigilancia d’este par conjugal que o recoveiro Cancella confiava o seu maïs precioso thesouro, a pequena Ermelinda, uma mimosa creança, que lhe ficára á sua viuvez tão cheia de saudades, e a quem elle maïs queria do que á menina dos olhos.