Página:A morgadinha dos canaviais.djvu/117

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ares enfastiados, como tomam aquelles senhores da cidade, quando conversam com uma pessoa rustica... Qual historia! Elle tudo quer saber, tudo pergunta... isso é um nunca acabar, quando lá me pilha... Então como vae fulano? e sicrano? e se já se fez aquella casa, e se já acabou aquella obra, e se já casou este, e se inda vive aquelle, e maïs para aquí, e maïs para acolá, e tudo quer muito explicado... Ah! ah! ah!... tem diabo o pequeño... Pois cá a respeito da rapariga?... Isso é uma comedia!... Não se farta de me ouvir falar d’ella... Ah, sr. Augusto, ás vezes chego a ter pena de que isto nascesse minha filha.

Ermelinda fitou o pae com olhos espantados.

—­Sim, filha,—­proseguiu elle.—­Deus não te devia dar a um homem como eu, que emfim... Com os diabos! lá alma e coração... não quero que haja ahi quem me lève a barra adeante. Eu por um amigo... e com mil demonios, até por um inimigo, se não fôr soberbo, vamos lá, dou a camisa do corpo... Mas o mundo... Bem, bem, eu cá me entendo. Vamos á minha tarefa. Mas que tem você estado para ahi a prégar, compadre, desde que eu entrei? Humh! humh! parece-me que já se cantou a gloria, hoje, visto que já se está ao sermão.

Effectivamente Zé P’reira tinha apenas concedido ao seu compadre um olhar de distracção e um aceno de mão, e voltára de novo ás suas queixas amargas contra a sorte e contra a esposa.

Interrogado pelo Herodes, Zé P’reira reproduziu uma das suas lamentações; o compadre, emquanto desenfardelava a mala, ia cortando com reflexões proprias essa longa jeremiada.

—­Então com que a ti’ Zefa deixou-o sem caldo, hein? É mal feito, a falar a verdade. Lume apagado em casa de familia é coisa triste... Aquí está um livro para si, sr. Augusto... Mas deixe lá, compadre, que a minha pequena arranja-lhe n’um aï algumas berças... Tambem eu estou em jejum desde