Página:A morgadinha dos canaviais.djvu/152

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custa-me vêr o Cancella deixar a Lindita entregue assim a essa gente quando sáe da terra. A pequena é tão apprehensiva!

—­Visto isso, já chegou aquí á aldeia a influencia dos missionarios?—­perguntou Henrique.

—­E não tem lavrado pouco!—­tornou Magdalena.

Christina, que era um poucochinho devota, censurou timidamente as palavras da morgadinha.

—­Primo Henrique—­disse ella—­julgo que ainda será preciso o seu auxilio para livrar do contagio está innocente Christina.

—­Prompto, prima Magdalena; para as boas causas tenho sempre armada a minha vontade.

—­Olha, Lena, não vês?—­exclamou Christina—­são os pequenos que nos estão a dizer adeus das janellas do mirante.

De facto nas maïs altas janellas do Mosteiro agitavam-se uns lenços brancos.

Marianna e Eduardo haviam-se erguido para saudarem, de longe, a irmã e a prima. Estás tiraram tambem os lenços e corresponderam-lhes aos signaes.

Interrompeu-as a voz de Henrique, dizendo:

—­Annuncio a v. ex.^{as}, que chega o rei da creação.

Effectivamente o cume do telhado da ermida e as franças despidas da alameda já se tingiam de luz.

Todas as vistas se voltavam para o oriente. Assignalava-o uma esplendida faixa de purpura, que, em insensivel graduação, desmaiava para as extremidades até se perder de todo no azul-céleste.

Rompia já, do meio d’ella, um pequeño segmento do sol, depois, o astro inteiro apparecia afogueado e vermelho, como um escudo de metal candente, e logo se desprendeu da terra, d’onde parecia surgir, e subiu nos ares, como um brilhante aeróstato, ao qual se rompessem as prisões que o retinham.

O monte inundou-se de luz. O valle, em baixo, estava ainda envolto nas meias sombras da madrugada.