Página:A morgadinha dos canaviais.djvu/165

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isso depois—­disse Magdalena.—­É de crêr que, como sempre, haja de parte a parte razão e aggravos. Agora convido-os, antes de descermos, a visitar a ermida, cuja porta está sempre, dia e noite, aberta aos devotos que a piedade aquí traz. E tal é o prestigio que a defende, que não consta de um só roubo sacrilego, que se fizesse n’ella.

Entraram na ermida. Era um pequeño santuario, todo forrado de azulejo antigo, com ennegrecidas pinturas a fresco nos apainelados do tecto, representando episodios da Paixão; os altares, adornados de columnas e florões de talha dourada, attestavam nos muitos ex-votos que d’elles pendiam e nos quadros, cuja perspectiva deixava a perder de vista a dos desenhos chinezes e que representavam milagres de todo o genero, a fé ardente com que era adorada a imperfeita esculptura da Virgem.

E apesar de tudo tinha este templo um ar de solemnidade manifesto. D’onde lhe vinha elle? Da sua mesma pobreza e nudez, do silencio que reinava em torno, da altura a que se erguia, do isolamento em que estava.

Alli dentro demoraram-se os quatro visitantes, Magdalena e Henrique examinando alguns dos quadros dos milagres; Christina, que prolongára maïs do que a prima a oração que fizera, contemplando a imagem da Senhora; Augusto com os olhos fitos nas columnas do altar, porém, não sei se pensando n’ellas.

Esperava-os uma surpreza á saida.

Realisára-se o prognostico do herbanario.

O vento sul que, segundo elle notára, soprava já havia algum tempo, viera condensar os vapores, que arrasta de ordinario na sua corrente, e empañar com elles a limpidez do firmamento. O azul do céo semeiára-se, pouco a pouco, de pequenos flocos brancos, de manchas irregulares e de longos e encurvados veios que lhe davam uma apparencia quasi marmorea. Cêdo estás massas de nuvens cresceram,