Página:A morgadinha dos canaviais.djvu/185

Wikisource, a biblioteca livre
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa


periodicos politicos, conseguira, á fôrça de leitura, fixar na memoria certas phrases de artigo de fundo, e acabára por convencer-se de que possuia grandes noções de sciencia politica. Em occasiões como está dava uma sacudidela ao intellecto, e aquellas phrases como os variados objectos do interior de um kaleidoscopo, tomavam uma disposição tal où qual, maïs où menos regular, e assim lhe saia uma dissertação, como essa que viram. Em permanente indigestão economica vivia este portento. A doença não é das maïs raras entre politicos.

O sr. Joãozinho das Perdizes abriu desmesurada e ruidosamente a bôca, depois do discurso do brazileiro, e disse:

—­Eu cá por mim não sei d’essas coisas. Não se me dava das estradas para poder ir á feira de Penafiel com menos trabalho, mas, já disse, que me não venham mexer na quinta; porque então teem que vêr.

—­Pois está arriscado a isso—­disse o brazileiro.

—­Veremos, depois não se queixem. Temos a historia da papelada outra vez.

—­Houve a ideia de levar a estrada pela Corredoura fóra, depois de tomar á esquerda pelo Castro e vir direito á Palhoça. Não tinha cruzes nem cunhos. Ia-me parte da propriedade.

—­Ah! ah! ah! Tambem não gosta? Diga-me d’isso!—­berrou o sr. Joãozinho.

—­Não é não gostar, é que o traçado era pessimo.

—­Não sei por quê.

—­Só a expropriação da minha quinta por que preço não lhes ficava?

—­Elles, para esses casos, lá teem umas leis a seu modo—­notou o padre cura.

—­E por onde ha de ir então a estrada?

—­O outro traçado, que eu aconselhei ao engenheiro, parte da herdade do capitão-mór, faz um viaducto