Página:A morgadinha dos canaviais.djvu/197

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—­Que sabes d’elle?

—­A seu tempo direi.

—­Como te vieram essas presumpções de conhecedor dos corações alheios? Não tinhas isso, quando d’aqui foste.

—­Ás vezes vê-se melhor de longe.

—­Os de vista cançada... de muito vêr.

—­Bem; depois falaremos. Vamos lá ter com a nossa gente, que o pae não tarda ahi.

De facto, meia hora depois estava a familia toda reunida n’uma das salas principaes da casa. O conselheiro, sentado n’uma cadeira de braços, tinha ao collo Marianna; Christina, a pé, encostava-se-lhe familiarmente ao hombro; a morgadinha, sentada em tamborete baixo, apoiava o braço, em que recostava a cabeça, em um dos joelhos do pae. Do outro lado da sala, D. Victoria, sentada no sofá, servia de travesseiro a um dos pequenos que, apesar de prometter estar acordado, para que o deixassem ficar a pé, adormecera. Junto d’este, Angelo fazia frequentemente rir sua tia e Eduardo, com as historias que lhes contava.

A conversa cêdo se generalisou. Era uma d’essas conversas intimas, familiares, em que se referem as maïs insignificantes circumstancias da vida domestica; conversas cujo suave perfume só em familia se aprecia.

Pobre do estranho que por acaso se encontra n’um d’esses círculos apertados pelos estreitos laços da amizade e do parentesco, e se vê obrigado a ouvir a minuciosa chronica das occorrencias da casa, que não é a sua! É uma pathetica illusão a de certas familias, que imaginam que para todos é de igual intéresse a narração dos successos domesticos, que tanto as deleitam, e com ella entreteem o primeiro indifférente que se lhes depara; tudo trazem á luz, o dicto agudo da creança de très annos, os incómmodos que soffreu na primeira dentição, as espertezas do gato favorito, as razões ponderosas