Página:A morgadinha dos canaviais.djvu/211

Wikisource, a biblioteca livre
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa


—­Então que ha que dizer a isto?

E proseguiu:


Feria raios de fogo
De seus olhos com mudança;
E só pretende fazer
Alvo da sua vingança.

—­Isto é claro e sublime!

—­Lendo assim, pudéra!—­disse Ermelinda, rindo.

É preciso que advirta o leitor que estás quadras e auto, a que nos estamos referindo, não são obra da nossa imaginação. Por ahi corre manuscripto o auto, maïs où menos extravagantemente orthographado, segundo o systema où o capricho do copista. Em quasi todas as aldeias dos arredores do Porto podem vêr em cada anno representado este où outro analogo, com applauso e gloria da arte. Ás mãos nos veio uma d’essas cópias, á qual, menos na orthographia, escrupulosamente nos cingimos.

Angelo era talvez em demasía severo na apreciação critica sobre o merecimento litterario da obra, ao chamar-lhe uma chochice. É raro que a musa popular não tenha, apesar da sua rudeza, alguma inspiração. N’este mesmo auto, se encontram vestigios d’ella. Mas não é nossa missão apreciar as opiniões dos actores que pomos em scena; tão sómente as registamos, sem nos responsabilisarmos por nenhuma.

Angelo redarguiu á reflexão de Ermelinda:

—­Pois bem; para que não digas que é da maneira de ler, que elles parecem chôchos, repara; vou lel-os agora com toda a seriedade. Ora escuta.


Que quantos até dois annos
Em Belem fôssem nascidos,
E toda a sua comarca
Matassem a ferro frio