Página:A morgadinha dos canaviais.djvu/238

Wikisource, a biblioteca livre
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa


—­Justamente.

—­Outra phenix; e quer-me parecer que tambem pertence ao numéro dos inviolaveis; não é verdade, prima?

—­Pertence ao numéro dos infelizes, primo, o que é justo considerar-se uma especie de inviolabilidade.

A resposta collocou Henrique em mau terreno, e por isso apressou-se a desviar do ponto principal da questão, dizendo:

—­Infeliz? Por que lhe chama infeliz? Os visionarios como elle teem em si os elementos da propria felicidade, e ninguem possue poder de perturbar-lh’a. Além de que o herbanario gosa aquí na terra de uma certa soberanía, que deve lisonjeal-o.

—­E olha que nem em Lisboa ha talvez quem saiba tanto como elle em coisas de doenças e de remedios, menino,—­disse D. Dorothéa, que era uma das fervorosas apologistas da sciencia do herbanario.

—­É na verdade um homem singular!—­disse o conselheiro.—­D’antes, na noite de Natal, e em todas as solemnidades de familia, tinhamol-o tambem por commensal, que ainda é parente arredado da casa. Ha annos porém deu em tomar a peito o meu procedimento politico e em prégar-me sermões e dirigir-me censuras, que eu fazia por escutar com a possivel resignação. Mas um dia foi maïs amargo nas suas recriminações e eu achava-me com maior susceptibilidade; julgo que lhe respondi com bastante acrimonia, e o homem saiu de minha casa offendido e protestando não voltar maïs a ella. Procurei-o, escrevi-lhe, tentei demovel-o do seu proposito. Não houve de quê. Havia-o ferido no seu orgulho, e é intolérante n’estas condições.

—­Sei-o já por experiencia;—­disse Henrique—­que n’uma unica entrevista que tive com elle, e que durou minutos, deu-me occasião de lhe conhecer a irritabilidade.

—­Vamos, primo Henrique; talvez possa haver