Página:A morgadinha dos canaviais.djvu/246

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um dos círculos que habitualmente frequentava em Lisboa; suppoz-se a fazer alli a narração da sua vida na aldeia, e parecia-lhe estar vendo os sorrisos com que o escutariam, e elle proprio construia os epigrammas, com que lhe seria por certo commentada a narração. E então uma vergonha de má indole, vergonha do homem que põe um preceito de elegancia acima de um dictame de moral, fazia-o córar, apesar de a sós comsigo mesmo. Voltava a ler a carta, que lhe parecia dictada pela experiencia e pelo bom senso, emquanto que a ingenuidade das suas crenças se lhe figurava ridicula e desarrazoada.

Quem ha que não tenha tido momentos d’estes? Quem se pode gabar de não ter perguntado um dia aos seus escrúpulos maïs nobres se não são meros preconceitos, que ficaram de uma educação acanhada? Quem não poz um momento em dúvida as sublimes verdades que a mãe lhe ensinou em creança? Henrique estava passando por um d’esses accessos de scepticismo. Magdalena era já para elle uma astuciosa, que muito se deveria ter rido da sua simplicidade; e tanto o incommodava está ideia, que promettia a si proprio ser d’ahi por deante maïs arrojado. Esta ordem de reflexões estavam acudindo outra vez a Henrique e recebiam da excitação, que se apoderára d’elle aquella noite, uma tenacidade maior. Sentindo a cabeça em fogo, Henrique levantou-se, apagou a luz, e abrindo a janella do quarto, saiu á varanda que deitava para a quinta, a respirar o ar livre.

A noite era sem luar e sem nevoas. Descobriam-se muitas estrellas no céo, que com forte scintillação parecia illuminarem a terra de um ténue crepúsculo, que mal deixava distinguir os objectos.

O ar frio da noite estava produzindo em Henrique um prazer, que elle procurava prolongar.

Não havia passado muito tempo, depois que assim se encostára á varanda do quarto, quando lhe