Página:A morgadinha dos canaviais.djvu/264

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—­Sejamos francos. A prima deve confessar que a minha presença aquí foi um desagradavel contratempo. Uma certa altivez e consciencia de invulnerabilidade, de que tinha o incómmodo de se revestir, sempre que tratava commigo, depois d’esta importuna occorrencia terá de se modificar.

—­Não havia dado por essa... revestidura que diz; mas, se ella existiu, far-me-ha o favor de dizer: por que não pode continuar?

—­Essa é boa! porque eu faço a justiça á prima de suppôr que não vae tão longe a sua hypocrisia.

—­Hypocrisia!—­disse Magdalena, com accento maïs severo.

—­Perdão; não tive tempo para inventar outro termo maïs... brando. Dissimulação talvez lhe agrade maïs. Seja dissimulação. Mas depois do occorrido...

—­Agora exijo eu que se explique, senhor.

—­Ora vamos. Seja razoavel. Poder-me-ha dar uma explicação... edificante... d’esta sua excursão nocturna?

—­Obsta apenas a que eu lh’a dê, sr. Henrique de Souzellas, a falta de uma pequena formalidade: a de lhe reconhecer o direito de interrogar-me.

—­Muito bem. Cada vez confirmo maïs a minha ideia. A prima é uma mulher admiravel, uma mulher superior, educada na alta escola de uma sociedade distincta, sobranceira por isso a pieguices provincianas. Tanto maïs me encanta! E creia que me envergonho só ao lembrar-me do que terá pensado de mim, vendo-me tomar a sério as suas profissões de fé, tão cheias de franqueza e de candura. Devo ter-lhe parecido bem ridículo, não é verdade?

—­Agora é que me está parecendo bem enygmatico!

—­Sim? N’esse caso eu me decifro. A prima não ignora que eu a amo.

—­Pois ignorava!—­atalhou Magdalena, com ironia.