Página:A morgadinha dos canaviais.djvu/288

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reservo-o eu para me recordar. Ahi está que ha pouco, quando aquí me vim sentar, ao ouvir os repiques na igreja, lembrei-me de que era, dia de Natal, e o meu pensamento voltou quarenta annos atraz a um dia igual ao de hoje. Lembras-te d’elle, Manoel?

—­Do dia de Natal de ha quarenta annos? Não.

—­Lembro-me eu. Faz hoje mesmo quarenta e dois annos que, maïs cêdo do que estás horas, vieste ter commigo aquí a casa. Tinhas pouco maïs où menos a idade que hoje tem teu filho Angelo. Meu pae saíra; julgámos nós ambos boa a occasião de levar a cabo um projecto que havia muito tempo traziamos na cabeça. Crescia a um canto do muro, além, á beira do poço, uma pequena faia que alli não podia durar muito tempo; meu pae todos os dias a ameaçava com a enxada e a custo a tinhamos defendido. Resolvemos transplantal-a. Deitámos mãos á obra essa manhã, e, no fim de alguns segundos, estava a faia mudada. Trouxemol-a para onde a deixassem em paz os hortelões, e para junto da agua que ella já tinha procurado. Conheces a arvore hoje?

—­Não—­disse o conselheiro, olhando em roda, como á procura de algum pequeño arbusto.

—­Olha que ha quarenta annos; a planta é hoje arvore. É está a que me encosto.

O conselheiro levantou então os olhos para os ramos vigorosos da arvore, como se lhe parecesse impossivel ter sido removida para alli por suas mãos.

—­É singular como os annos correm, e as arvores crescem depressa—­disse elle, distrahidamente.

—­Depois da nossa tarefa, sentámo-nos—­proseguiu o herbanario.—­Tu ficaste, exactamente como estás agora, á beira d’este tanque. Então, lembra-me bem; olhando para os ramos tenros d’este arbusto, que ainda não sabiamos se viveria, tu disseste: «Fizemos uma obra que durará maïs do que