Página:A morgadinha dos canaviais.djvu/298

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lares do morgado tudo era desordem e desmazelo; a cada passo se tropeçava n’um podengo où se trilhava a cauda a um perdigueiro. Henrique sustentou uma verdadeira lucta com o proprietario, para esquivar-se a engulir todas as énormes dóses de carne de porco e de vinho, com que elle, á viva fôrça, o queria regalar.

No quarto em que os hospedes pernoitaram estavam amontoados no meio do chão uns poucos de alqueires de milho e de castanhas, e aos pés dos leitos dormiram enroscados dois galgos, que elles não conseguiram desalojar, e que toda a noite os incommodaram com latidos ao menor rumor que escutavam fóra.

Henrique lamentou a influencia eleitoral do morgado das Perdizes, que o obrigava a está noitada.

Outro dia jantaram em casa do brazileiro, que lhes mostrou toda a sua propriedade, tendo Henrique de obrigar a sua eloquencia a esgotar-se em affectadas exclamações, deante dos prodigios de mau gôsto reunidos alli.

As estatuas de louça, os alegretes de azulejo, os arcos feitos de cana, por onde se entrelaçavam magras trepadeiras; um pequeño modelo de fragata brazileira com tripulação de altura dos cestos de gavia, fluctuando n’um tanque circular; uma gruta estucada de azul e com assentos de palhinha, para onde vinha ler as folhas o sr. Seabra, eram as principaes maravilhas do jardim. Nas salas mobilia rica, mas vulgar; lithographias coloridas em custosas molduras douradas; bordados, diplomas de socio de não sei quantas sociedades brazileiras; tudo encaixilhado, e no logar de honra a estampa das capellas do Bom Jesus de Braga. Á impertinencia de admirar estás preciosidades accrescia a de ouvir e de ter de achar graça a um papagaio que cantava o hymno brazileiro.

Henrique saíu de lá exhausto de paciencia.

Com estás visitas politicas, passou, como disse-