Página:A morgadinha dos canaviais.djvu/301

Wikisource, a biblioteca livre
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
27

rar as creanças e estremecer as mães; ia resuscitar Herodes, o déspota legendario.

Trabalhando e suando, resmoneava os versos do seu papel de tyranno e insensivelmente fazia gestos e esgares promettedores de effeitos scenicos futuros.

Os seus collegas eram menos ardentes pela arte. O Herodes olhava-os com a sobranceria de um Talma, e muitas vezes lamentava sinceramente a ausencia de vocações dramaticas que auxiliassem a d’elle.

E não sorriam os leitores a está velleidade artistica do recoveiro; alli havia fundamentos para ella. O Cancella era o minerio de um tragico, deixem-me assim dizer. No meio de uma escoria de rusticidade continha abafado mineral de lei.

Tivessem sido outras as contingencias da sua vida, vêl-o-hiam porventura arrebatar plateias inteiras com as revelações do genio, que ás vezes n’um grito, n’um sorriso, n’um gesto se manifesta; mas ainda assim inculto, não mentia n’elle o verdadeiro enthusiasmo, o sentimento da arte que lhe afogueava as faces e os olhos, e lhe animava o gesto no calor do desempenho; não mentia aquella embriaguez que lhe causavam os applausos da multidão. Não ha verdadeiro genio artistico, que se não namore do publico, embora o saiba caprichoso, inconstante e ingrato. O homem, indifférente aos applausos das turbas, nunca será poeta nem artista de verdadeira inspiração. O amor vivo da gloria adeantou a meio caminho os emprehendedores d’esta nova conquista de vellocino.

Ermelinda, essa tremia com a commoção de artista novel, á lembrança do espectáculo, em que pela primeira vez ia entrar.

As senhoras do Mosteiro, où antes Magdalena e Christina, tinham querido encarregar-se da toilette da Fama.

Logo de manhã fôra pois a pequena Linda para o Mosteiro, e passava das mãos de Magdalena para as de Christina e das d’esta para as d’aquella, e