Página:A morgadinha dos canaviais.djvu/332

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Catharina e as suas companheiras fartaram-se de anathematisar a impiedade e a heresia da gente do Mosteiro, e no coração da filha do Cancella, dominado pelo terror que o sermão levára ao cumulo, calavam aquelles dizeres, que a faziam quasi olhar, como se fôssem já prezas do inferno, para Magdalena e Christina, a irmã e a prima de Angelo, do seu amigo de infancia, em quem já não se atrevia a pensar.

N’uma occasião em que o missionario fulminava com maïs vehemencia os progressos da industria moderna e chamava redes do demonio e caminhos do inferno aos telegraphos electricos e ás vías-ferreas, Henrique approximando-se dos ouvidos das duas primas, fez não sei que reflexão tanto a proposito, que a morgadinha não conteve o riso; a propria Christina sorriu tambem.

Era de maïs! O padre pulou no pulpito. Com os olhos em chammas, as faces apopleticas, os labios espumantes, os punhos cerrados e os braços hirtos e estendidos na direcção de Henrique, rompeu n’estes violentos termos:

—­Fóra do templo, pedreiros livres, que vindes aquí escarnecer da palavra do Senhor! Fóra do templo, impios libertinos, que não respeitaes os ministros de Deus, nem o seu altar! Andam lobos no povoado e vieram esconder-se entre as ovelhas na casa do Senhor! Escorraçae-os, irmãos, se não quereis que se vos pegue a lepra do peccado e que Deus arraze está aldeia, como arrazou Gomorrha e Sodoma. São esses os que trazem das cidades a peste para as aldeias; são estás as pragas que nos veem com as estradas e com a civilisação. Fugi d’elles, que trazem o demonio na alma! Homens sem religião, mulheres sem temor de Deus, mações, pedreiros livres, vindes para aquí tentar as almas? Eu vos esconjuro! eu vos requeiro! Vade retró, Satanaz, vade retró! vade retró!...

E de cada vez que repetia a fórmula exorcista, o missionario