Página:A morgadinha dos canaviais.djvu/352

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apresentava escuro como um phantasma, e não conjecturou bem do que via. Por isso parou tambem, olhando para elle. O côro suspendeu-se.

O Cancella fitou por algum tempo em silencio o padre, e perguntou-lhe:

—­Sabe quem sou?

O padre fez um signal negativo com a cabeça.

—­Sou um homem desesperado, um homem que, n’este momento, nem ouve Deus.

O padre olhou inquieto para traz de si e para os lados, como quem procurava uma saída para caso de necessidade, pois dizia-lhe a razão que um homem que não ouve Deus não estaría muito disposto a escutal-o, a elle, humilde creatura.

—­Sabe o que lhe quero? Perguntar-lhe por a alegría e por a saude de minha filha; perguntar-lhe por o amor d’ella, que me roubou; perguntar-lhe a que demonio offereceu os cabellos d’aquella creança sem culpa nem maldade; perguntar-lhe com que veneno lhe envenenou o coração, e depois... depois matal-o.

O padre enfiou; ia a abrir a bôca para falar, mas viu caminhar para elle o Cancella, viu no ar aquella mão musculosa e larga, e, calculando a violencia do embate pelo volume do braço, julgou-se de antemão esmagado, e só pôde encolher os hombros, fechar os olhos, contrahir comicamente as feições, e suspender a respiração, aguardando n’esta postura o golpe, que não podia evitar.

Este de facto não foi suave. A mão do Cancella caíu em parte sobre o cabeção, em parte sobre o pescoço do padre, e com tal fôrça, que este foi constrangido a ajoelhar.

—­Anda, meu impostor do inferno!

E uma forte sacudidela o impelliu para deante e restituiu de novo á primeira posição. O chapéo rolou a alguns passos de distancia.

—­Anda, meu envenenador de almas!

Nova sacudidela seguida de iguaes resultados; e os oculos seguiram o caminho do chapéo.