Página:A morgadinha dos canaviais.djvu/373

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—­Vamos, primo Henrique; confessemos que a situação não foi das maïs agradaveis.

—­Sinto-a, principalmente por o incómmodo que tiveram as senhoras e talvez por esse episodio dar vigor á opposição, que alguem por ahi se interessa em organisar contra o sr. conselheiro.

—­Ah! pois trata-se d’isso?

—­Se se trata?! E muito sériamente. A portaria a respeito do cemiterio, a historia do sermão, e agora o episodio do Cancella, teem feito um grande mal.

—­Oh! se meu pae perdia!...

—­Não entendo essa exclamação, prima Magdalena. Ia jurar que era a expressão de um desejo.

—­E por que não? Se isso fôsse motivo para meu pae abandonar de uma vez para sempre a politica, pedil-o-hia a Deus.

—­Conhece pouco ainda o coração humano, prima. Seu pae está votado á politica para toda a vida. Desengane-se. E se o prendesse n’esta aldeia, aquí mesmo faria a maïs deploravel, impertinente e inútil de todas as politicas, a politica local.

A morgadinha suspirou, como se reconhecesse a verdade que Henrique dizia.

Henrique proseguiu:

—­Está organisado um club opposicionista na taberna de um tal Canada. O brazileiro capitaneia a phalange, os padres são os tribunos e a propaganda estende-se assustadoramente. É preciso olhar por isto e sobretudo não perder de vista o sr. Joãozinho das Perdizes, cujo voto seu pae tinha em grande conta, porque representa o de uma freguezia inteira. É de suppor que o requestem muito e... o homem é frágil. Já vê, prima, que eu tomo muito a sério os preceitos hygienicos, que me deu o meu medico, quando parti de Lisboa, e que a prima approvou. Estou a interessar-me pelas questões locaes, como se aquí estivesse, ha annos.

—­E é um bom indicio de cura, pode crer.