Página:A morgadinha dos canaviais.djvu/378

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Esse envenenamento moral, que eu até aquí não conheci, quer meu pae que voluntariamente o contraia.

—­Seja envenenamento, muito embora, mas é um envenenamento salvador, prima, como o da vaccina; é um preservativo de traição.

—­Viver para desconfiar! procurar nas palavras que se ouvem um sentido occulto! nos gestos uma expressão denunciadora! nos affectos uma intenção egoista! Oh! isto é horrivel! Mas... que carta é essa, meu Deus? Que correspondencia pode ter meu pae, que não deva vêr a luz do dia? Meu pae!... Ha por fôrça illusão n’isto! Meu pae não tem crimes; meu pae não tem acções que o envergonhem; meu pae pode franquear a todos as portas da sua casa sem receiar-se de indiscreções. Pois não é assim?

—­Por certo, prima; mas... na politica ha actos que... sem serem criminosos...

—­A politica! Sim, é isso! Eu devia prevêr que essa palavra viria para explicar este mysterio! Por politica é-se cruel, por politica sacrifica-se um amigo, por politica força-se a consciencia, e depois... ella justifica tudo. Que obras são as obras politicas que precisam da sombra e do mysterio para se fazerem? Pois para dirigir où salvar uma nação, pois para se tratar dos interesses de um povo, é sempre necessario o disfarce, a dissimulação, o mysterio?

—­Quando se não pode contar com a boa fé dos outros, perde sempre quem fôr escrupulosamente fiel á sua.

—­Mais valeria então abandonar por uma vez essa carreira cruel... Oh! ainda agora reparo... Tem ahi as folhas de Lisboa... deixe-m’as vêr... quero saber que carta é está.

Henrique procurou dissuadil-a. Um numéro avulso de um periodico, que não costumava vir ao Mosteiro, havia-lhe já feito suspeitar que era esse o que publicava a carta em questão. Não fazendo do conselheiro