Página:A morgadinha dos canaviais.djvu/406

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animar-lhe o rosto infantil, havia pouco gelado de terror e pela doença; ás vezes até um sorriso, ainda que melancólico, distendia-lhe os labios desmaiados, e só de quando em quando raras nuvens de tristeza, evocadas por uma recordação penosa, parecia assombrarem-lhe o olhar limpido e meigo; os somnos eram tranquillos, as vigilias serenas, e apesar de tudo a morgadinha entristecia ao reparar n’ella.

O facultativo da localidade, apalpando com os dedos robustos o delicado pulso da creança, assegurára que ella estava já livre da febre; e apesar d’isso, Magdalena quasi sentia remorsos, quando escrevia ao Herodes a dar-lhe a boa nova.

E é certo que maïs do que justificadas tinham de ser estás apprehensões da morgadinha.

Na tarde d’aquelle mesmo dia, em que Ermelinda acordára maïs tranquilla e animada, renovaram-se subitamente, e assustadores como nunca, os indicios do mal profundo.

Um delirio violento, caracterisado por vagos e mal definidos terrores, gritos angustiosissimos, contracções espasmodicas, que parecia despedaçarem aquelle corpo frágil e delicado, surgiram de novo, e, ao dissiparem-se, deixaram, como rastos, uma prostração extrema, uma quasi completa insensibilidade de funesta significação.

Magdalena, assustada, tomou nos braços a debil e emmagrecida creança, e trouxe-a para junto de uma janella, d’onde ainda se avistava o sol, já quasi a esconder-se por detraz de uma collina distante.

Dir-se-ia querer pedir, aos frouxos raios de um quasi crepúsculo de inverno, um pouco de calor para fundir os gêlos da morte, que principiavam a invadir os membros delicados d’aquella formosa creança; ao clarão levemente afogueado do horisonte, um pouco das suas tintas para aquellas faces morbidamente pallidas; á amenidade da paizagem, um reflexo de sorriso para aquelles labios, onde elle se apagára.