Página:A morgadinha dos canaviais.djvu/417

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—­Já está a tocar o sino! Ao cemiterio emquanto é tempo!

E no entanto o brazileiro, chamando de lado o Cosme, convencia-o, por varios géneros de argumentos, da conveniencia d’este partido, e tão convencido o deixou, que elle berrou d’ahi a pouco:

—­Deixa o homem para outra vez, João, deixa-o e vamos a elles ao cemiterio!

—­Ao cemiterio, ao cemiterio! repetiram algumas vozes.

—­E queime-se a papelada da camara!

—­E mate-se o escrivão de fazenda!

—­E quebrem-se os vidros do Mosteiro!

—­E pegue-se fogo á casa!

Eram de bastante fôrça estes argumentos para convencer o sr. Joãozinho.

—­Pois vá lá, rapazes! Com este faremos contas depois. Ao cemiterio! Atiremos a terra com o tal mausoléo!

E prepararam-se para sair tumultuariamente. Henrique, ouvindo isto, percebeu do que se tratava, e prevendo sérios riscos para as senhoras do Mosteiro, desembaraçou-se dos braços do Canada, que teimava em segural-o e em dar-lhe conselhos de prudencia, e correu a montar a cavallo para se anticipar aos desordeiros. Effectivamente assim o fez; mas, ao passar por entre o grupo d’elles, o varapau do Cosme, floreteando outra vez no ar, caiu sobre a cabeça do cavallo. O animal, atordoado por a pancada, partiu em galope desenfreado, e apesar de toda a arte de Henrique, acabou por o arrojar a terra com tal violencia, que o deixou como morto.

Os desordeiros seguiram, capitaneados pelo morgado, o caminho do cemiterio. O brazileiro, o padre e o Pertunhas, acolheram-se pacificamente aos lares.

O sino da igreja continuava a repicar.