Página:A morgadinha dos canaviais.djvu/422

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pouco principiou a mover-se alguma coisa por entre os troncos do pinheiros; tornaram-se distinctas uma, duas, très e muitas figuras de homens, correndo em direcção ao cemiterio, gesticulando, berrando, soltando ameaças, algumas das quaes já a distancia a que elles vinham permittia ouvir claramente.

Não era difficil adivinhar a significação d’aquillo. A questão vital do dia era, para todos os espiritos, a dos enterros, em campo descoberto; a cada momento se falava em motim prompto a organisar-se e a rebentar. Ficava pois évidente que tinha chegado a ocasião da crise popular já antevista.

Cêdo invadia o cemiterio um bando de furiosos, desorientados, de aspecto feroz, berrando e brandindo ameaçadoramente paus, fouces, chuços, e todas as peças do extravagante arsenal, a que o homem do povo recorre sempre ao chamamento da arruaça où da sedição.

Era o bando dos influentes da taberna do Canada, de cujo proposito estavamos prevenidos; agora, porém, já engrossado, como a corrente a que no caminho se incorporam as aguas dos algares.

Entre os primeiros vinha o sr. Joãozinho das Perdizes, e ao seu lado o factotum Cosme.

Estes, enraivados, correram para o logar onde parára o enterro, bradando em confusão:

—­Alto lá! alto lá! Ninguem se enterra aquí!

—­Esperem! Isso não vae assim!

—­Não façam a festa sem nós!

—­Fóra com os do cemiterio!

—­Morram os pedreiros-livres!

—­Para a igreja!

—­Enterre-se na igreja!

—­Olá, sr. abbade, espère por nós!

—­Aquí vamos para abençoar a cova!

E n’um momento o cortejo funèbre viu-se rodeado de figuras avinhadas, gesticulando e vociferando pouco tranquillisadoramente.