Página:A morgadinha dos canaviais.djvu/440

Wikisource, a biblioteca livre
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
166

No fim, como se o prazer que o frescor do liquido lhe causára lhe avivasse por instantes a consciencia, fitou em Christina um olhar de gratidão, sorriu-lhe, e, pousando a cabeça outra vez no travesseiro, fechou os olhos para dormir. Esta somnolencia era habitual.

Christina não ficou inactiva; preparava um remedio, arrumava um movel, desviava os raios da luz da fronte do enfermo; ia ao corredor mandar calar os irmãos où os criados, où desfazer alguma dúvida suscitada por os ultimos sobre o cumprimento de qualquer ordem; outras vezes parava a espiar o aspecto do doente e a escutar-lhe o rhythmo do respirar. E sempre movendo-se agil e sem ruido, diligente e sem confusão.

Magdalena, que se sentára a um canto da sala, quasi subjugada pelas muitas e violentas commoções d’aquelle dia, contemplava a actividade da prima e extranhava-a.

Ella propria, que melhor do que ninguem conhecia Christina, nunca a suppuzera capaz d’aquella firmeza de animo e d’aquelle espirito methodico e providencial de que estava dando agora irrecusaveis provas.

Apreciára-lhe até então os dotes de creança, a bondade do coração, os extremos de affecto que possuia; mas ainda a não tinha visto tomando assim tanto a sério a sua missão de mulher e desempenhando-se d’ella tão dignamente.

Esta ordem de reflexões conduzia naturalmente a outras o espirito da morgadinha. Reparando para Henrique, assim derrubado no leito, e como que sob a protecção de uma timida e debil creança que, maïs do que elle, parecia carecer de amparo, Magdalena não pôde reprimir um sorriso benigno e pensou:

—­Sim; aquella cabeça estouvada pôde até hoje passar por este anjo sem o conhecer; mas é preciso não ter coração para que, ao erguer-se d’aquelle