Página:A morgadinha dos canaviais.djvu/528

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bem que era eu a que me casava?... Digo isto, porque o Cancella tambem estava na mesma crença. Parece que correu essa voz na aldeia. Estes boatos!... E acham logo quem se fie n’elles!

E, mudando de inflexão, proseguiu:

—­São dois noivos exemplares, Henrique e Christina, perdidos um por o outro. Christina, com a sua timidez, exerce um forte imperio sobre aquelle incorrigivel da capital. Mas para isso foi preciso encontral-o doente. Tenho orgulho de ser eu a primeira a legitimar, de alguma maneira, aquella sympathia. Fôram singulares as circumstancias em que isto se effectuou. Eu lhe conto. Foi de noite, e noite de chuva, na capella-mór da minha propriedade dos Cannaviaes, onde Christina fôra rezar, pela saude de Henrique, as estações da meia noite; onde Henrique foi para seguir e observar Christina, e onde eu fui, com a Brizida, para os vigiar a ambos e preparar-lhes o futuro; intervenção algum tanto perigosa, porque podia haver quem me seguisse a mim com menos generosas intenções de que as de qualquer dos très, e que, ao vêr-me em tão extraordinario sitio, a taes horas, não me concedesse a confiança precisa para acreditar, através de tudo, na minha innocencia.

A allusão era clara, e maïs clara a fazia a inflexão com que foi pronunciada.

Augusto curvou a cabeça e murmurou:

—­Tem razão, algum miseravel.

—­Ou algum infeliz—­corrigiu delicadamente Magdalena.—­Os infelizes são tambem sujeitos a perderem a fé. Mas quem lhes pode levar a mal isso?

Houve alguns instantes de silencio, no fim dos quaes a morgadinha disse maïs jovialmente:

—­Mas afiancei ha pouco que não partiria. Acaso me enganei?

Augusto, como o leitor concebe decerto, já não tinha animo nem razão para dizer que partia. Calou-se.