Página:A morgadinha dos canaviais.djvu/550

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mado ao ministerio. Nos momentos em que vemos satisfazer-se qualquer ardente desejo do nosso coração, abrimo-nos ás sympathias para com os desejos dos outros; se de nós depende realisal-os, cedemos de boa vontade. Como pae, havia as lágrimas da filha a convencel-o, e a eloquencia d’este argumento das lágrimas em olhos de mulher, é geralmente sabida: quanto maïs se a mulher é joven e bella! quanto maïs se a mulher é filha!

Sem o menor vestigio da irritação anterior, o conselheiro ergueu Magdalena, apertou-a ao seio e disse-lhe meigamente:

—­Por que choras tu, Lena? Creança! Então promettes-me ser muito feliz, se eu te deixar fazer as tuas loucuras?

Magdalena respondeu-lhe, abraçando-o affectuosamente, e beijando-o.

Ha argumento maïs convincente do que este? Conhecem arma maïs poderosa contra as severidades de um pae?

O conselheiro beijou tambem paternalmente nas faces a filha, e voltando-se depois para Augusto, disse-lhe, em tom de voz quasi affectuoso:

—­Augusto, vou confiar-lhe a minha felicidade, confiando-lhe a felicidade da minha Lena. Vingue-se da injustiça e do mal que lhe fiz, tornando-m’a venturosa. É a unica vingança á altura da sua alma.

Augusto não teve tempo para responder. Se uns restos de orgulho tentassem luctar ainda com o amor, suffocal-os-hiam os esforços combinados de Christina, de D. Victoria e de D. Dorothéa, que o arrastaram quasi para junto do conselheiro.

E toda aquella familia, em que não havia n’aquelle momento um só coração triste, confundiu-se por algum tempo no maïs desordenado, pueril e pathetico grupo, que pode desenhar um artista.

Para maïs tocante confusão ainda, as creanças, que voltavam dos seus brinquedos na quinta, en-