Página:A morgadinha dos canaviais.djvu/62

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Na mulher, que estava deante de si, reconheceu a leitora da deveza, a interessante rapariga, que tanto o preoccupára.

Era ella, era o mesmo vestido de xadrez, era a mesma cabeça, agora melhor apreciada ainda, porque nada havia a encobrir-lhe a fronte de um primoroso modelo, e os cabellos penteados com tanta graça como singeleza. Em vez do longo chale de casimira, trazia agora uma especie de jaqueta, curta e larga, apertada por alamares, de fórma pouco mais ou menos similhante á que, na nomenclatura das modistas, nomenclatura quasi sempre absurda, e de mau gôsto, teve depois a impropria e desastrada denominação de zuavo!

A surpreza de Henrique não passou despercebida a quem era causa d’ella e que lhe correspondeu com um gesto de curiosa interrogação.

― Perdão, minha senhora ― disse Henrique, comprehendendo aquelle gesto ― mas ignorava que vinha encontrar aqui uma pessoa, que já me não era estranha.

― E sou eu essa pessoa?

― É v. ex.a effectivamente.

― Pois já nos vimos?

― Já... quero dizer, eu já vi v. ex.a

― Pode ser; pela minha parte confesso-lhe que me não lembra de o ter visto nunca. Apesar d’isso sei que é o sr. Henrique de Souzellas, sobrinho d’aquella boa senhora de Alvapenha, a tia Dorothéa; não é verdade?

― Eu proprio. O conhecimento que tenho de v. ex.a não é antigo tambem; data de algumas horas apenas.

A interlocutora de Henrique, ouvindo isto, contrahiu levemente as sobrancelhas bem desenhadas, fez um movimento de labios e deu á cabeça uma ligeira inclinação sobre o hombro, d’onde resultou para aquella gentil physionomia a mais adoravel expressão de estranheza, que pode animar um semblante de mulher.