Página:A morgadinha dos canaviais.djvu/94

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generosidades são ás vezes a causa do infortunio de uma vida inteira; acceites où recusadas, é raro que depois, a cada provação que nos experimenta, uma voz interior nos não exprobre o partido que abraçamos.—­«Louco! para que hesitaste em trocar meia duzia de phantasmas por um bem real? Quem te mandou sacrificar a vaporosos idolos de poetas o beneficio que te offereciam?»—­dirá ella aos que rejeitaram o pacto.—­«Ambicioso!—­clamará aos outros—­ahi tens a felicidade que julgaste comprar á custa do que ha de maïs nobre na alma humana; embriaga-te agora no incenso, em que envolveste o altar do bezerro de ouro, consumindo ahi as tuas maïs santas e generosas aspirações.» Augusto não adivinhou porém logo a crueldade da disposição testamentaria. Era muito creança ainda; e depois uma ideia nobre o preoccupou; comprehendeu que ia ser o amparo d’aquella pobre mãe, que só podia abrigal-o com os extremos do seu muito amor. Seu pae, morrendo, apenas conseguira deixar uma herança; foi á viuva o dever de velar pelo filho. Augusto exultou vendo que podia inverter aquelle legado, velando elle pela fraca mulher, que, para bem o cumprir, esgotaria de certo a vida.

Redobrou por isso a solicitude no aprender; desenvolveu-se maïs e maïs a intelligencia, quasi espontaneamente, pois justo é confessar que bem rudes eram os cuidados de cultura que o velho magister lhe sabia dar. Mas quem ignora os surprehendentes effeitos que da intelligencia e do estudo, da aptidão e da vontade, podem resultar? Dotem um homem d’essas duas faculdades poderosas e neguem-lhe embora os meios de progresso, elle caminhará, inventando-os primeiro, se tanto lhe fôr preciso.

E depois, é um grande alento aos espiritos superiores a consciencia de uma nobre missão a cumprir. Não ha fadigas que tal estímulo não vença; abnegação, que não inspire.