Página:A morgadinha dos canaviais.djvu/97

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tempo na aldeia. Não se pôde atinar com os motivos d’este pedido. Indolencia não era; pois no entretanto começou a estudar os rudimentos do latim com o illustre professor, que o leitor conhece já, mestre Bento Pertunhas.

A saude vacillante da mãe de Augusto declinou n’esse inverno; o que veio dar outro motivo á demora do filho.

Dias e dias passou o pobre rapaz sentado á cabeceira do leito dividindo os seus cuidados entre o estudo e os carinhos pela estremecida enferma. Dois annos se passaram d’esta vida, e quando, ao fim d’elles, Augusto abandonou aquelle leito, foi depondo um beijo nas faces geladas de um cadaver.

Era orphão.

A vaga sombra de melancolía, que já lhe toldava o rosto,condensou-se-lhe maïs então. Era quasi um negrume de tristeza.

Por esse tempo, veio o conselheiro trazer Magdalena para a aldeia, pois receiava pela saude d’ella se persistisse em Lisboa.

O conselheiro propunha-se levar comsigo Augusto, quando voltasse a Lisboa. Uma manhã, porém, este, de pouco maïs de quinze annos, procurou-o e disse-lhe com uma gravidade, que revelava uma tenção meditada e irrevogavel:

—­Venho prévenir v. ex.^a de que desisto do legado da sr.^a morgada. Não quero ordeñar-me.

O conselheiro fitou-o, estupefacto.

—­Não queres ordeñar-te! Por quê?...

—­Já não tenho mãe a quem amparar. Por ella forçaria a minha vocação sem remorsos; por intéresse proprio não o posso fazer; parece-me um sacrilegio.

O conselheiro era um homem muito do seculo. O seu trato social, a frequencia dos círculos politicos e elegantes, haviam-lhe dado todas as boas e más qualidades, que caracterisam aquella classe de homens, e sabe-se que a candura de sentimentos