perante pessoas que nunca (ou quase nunca) tiveram a possibilidade de serem reconhecidas (ou recompensadas) como donas do conhecimento que produzem representa uma libertação das amarras ou uma renovada abertura para apropriações? Como encarar essas tensões?
Qual Wikipédia? E por quê?
Nesta seção, voltamos ao diálogo com as pessoas com as quais dialogamos no período de desenvolvimento da pesquisa. Retomamos o que parte delas demonstraram compreender como conhecimento livre e de qual maneira a Wikipédia foi narrada por nossas e nossos interlocutores como uma plataforma de promoção e acesso ao conhecimento de pessoas negras e indígenas. Adotamos aqui dois procedimentos distintos, quando os diálogos foram travados nos eventos já mencionados, organizados em fevereiro e março de 2022, os nomes das(os) participantes serão trazidos, pois houve concordância em ser exposto o que estava sendo dito. No entanto, os nomes das pessoas que foram entrevistadas e que entraram mais profundamente em suas trajetórias individuais serão anonimizados – pedido feito durante as entrevistas.
Após retomarmos o percurso e a construção da noção conhecimento livre e como sua história está atravessada por contextos que tendem a enxergar o conhecimento e o bem comum a partir de lentes universalizantes, em diálogo com Silveira e Savazoni (2018), retomamos o que havíamos apontado no começo deste capítulo: assim como as noções de desigualdades não surgem com frequência nos espaços de debate sobre conhecimento livre, conforme a nossa experiência de pesquisa, essa categoria não é amplamente conhecida ou trabalhada de forma nativa por pessoas dos movimentos negros e indígenas que vêm pautando as diferentes noções de conhecimento.
A quase ausência da noção de conhecimento livre no discurso das pessoas ouvidas é por si só um resultado interessante, pois lança luz para o distanciamento entre pessoas negras e indígenas envolvidas na discussão sobre equidade e conhecimento e a pauta do conhecimento livre. Nos parece correto afirmar, assim, que o distanciamento entre esses dois temas, no contexto brasileiro, faz com que as discussões sejam travadas a partir de referências bibliográficas e localizações subjetivas distintas. Enquanto pesquisadores como Silveira e Savazoni (2018), reconhecidos pela presença