E Gorki não morreu no ignobil cadafalso,
Porque o senso commum não deu rebate falso
Nem quiz passar além das raias do provavel...
Por mim, que nada valho, entendo que é louvavel
N'um pensamento bom de paz e de concordia
Pedir a protecção, pedir misericordia
Para quem soffre, longe, a expiação de um erro,
Para quem, perto, soffre o espiritual desterro.
Podera eu redimir delictos e miserias,
Constellar de esperança essas regiões funereas
Onde ha perpetuamente as tragicas risadas
Do desespero hostil, das vidas condemnadas;
Podera eu resgatar a triste humanidade
Dobrando o meu joelho aos pés da Magestade...
E não hesitaria um só momento, um só!...
E viesse quem viesse a escarnecer, com dó,
Ditosa me julgava, emfim, antes da morte.
Bem dona do meu «eu», serenamente forte,
Eu seria maior que toda a intransigencia...
Que eu nunca lhe enfeudei a minha independencia,
Nem puz uma etiqueta ás crenças da minh'alma!
Podera eu demudar o odio em 'brando arrulho,
E o espirito de Luz me cingiria a palma,
Porque o supremo heroismo é dominar o orgulho.
Senhora! A lei julgou, mas para condemnar.
Senhora! Julgae vós, mas para resgatar.