Foi um drama de febre, um lamentavel drama
Que a ignorancia causou, e compaixão reclama.
Demais, ninguem oppôz prophylaxias cautas,
Para salvar do abysmo os miserandos nautas.
Se lhes houvessem posto um facho assás visivel
No arsenal da instrucção... era evidente e crivel,
Que teriam ouvido a ameaça de destroços
Ao soltarem a amarra em ares muito grossos.
Mas largaram sem rumo... Iam de pannos largos
Aos ventos de um acaso; e breve, quão amargos
Acharam na derrota os devaneios louens!
O barometro foi baixando, logo, aos poucos...
O céo fez-se de tinta, a tinta côr da magua,
A barea afocinhou... metteu as perchas na agua...
Cerrou-se o nevoeiro... Onde is então a proa?
Não governou o leme e o barco foi-se à tôa!...
Depois... era o naufragio... e emfim não sei que fique
Quando o dever sossobra e a crença vae a pique.
― Bem pouco se perdeu ― dirá gente sem alma;
Mas a consciencia humana, intemerata e calma,
Dirá isto, sómente: Os homens são irmãos,
Quando algum resvalou, cumpre estender-lhe as mãos.
E vós, Senhora, e vós, que sois compadecida,
Haveis de ouvir chorar a alma dolorida
Da Terra Portugueza, a Terra dos proscriptos,
Terra que o Sol vestiu com osculos bemditos:
A Terra onde germina a luz dos corações
Que se chamaram Gama, ou Egas, ou Camões.