Página:Ao correr da pena.djvu/182

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pode dar glória a um dia como o 2 de dezembro, mas nunca a um ano como o senhor.

— Finalmente esta cidade não pode deixar de agradecer-me o não ter querido imitar aquele malvado 1850.

— Parece sepultis, meu caro.

— Perdão, senhor: não quero falar mal de ninguém; mas, à vista daquele ano, acho que se deve levar-me em conta a ausência da febre amarela e de outra qualquer epidemia.

— Ora, é boa! Nisso não fez o senhor mais do que cumprir o seu dever.

— Entretanto...

— Espere... espere... lembra-me agora; e aquele grande medo que o senhor nos meteu com o cólera!

— Ora, senhor! Retorquiu-me o sujeito com um risozinho malicioso!

— Explique-se.

— Aqui em segredo; aquilo foi um negócio com os médicos.

— Não se zangue, senhor; lembre-se do que eu fiz pelos advogados com a questão das sociedades comanditárias; do que fiz pelos jornalistas, à quem presenteei com uma boa quantidade de pufs; lembre-se, finalmente, que esse mesmo receio do cólera deu-lhe matéria para um folhetim em ocasião em que o senhor estava bem apertado.

— Bem; o dito por não dito. A respeito da salubridade pública pode ficar descansado.

— Agradeço infinitamente a V. S.

— Não se apresse tanto; talvez no fim tenha muito que agradecer-me. Até aqui tem o senhor alegado os seus direitos; agora há de permitir-me que capitule as minhas queixas. Trate, portanto, de defender-se, bem.

— Farei o que puder.

Havia algum tempo que me parecia que o tal sujeito ia emagrecendo de uma maneira espantosa, e tornando-se delgado