Página:Ao correr da pena.djvu/213

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Por ventania rija, e os olhos turvos
Em vão se esforçam por verter um pranto -
Consolo que lhe adoce a dor cruenta.
E as lágrimas enxutas se derramam
Por sobre a face em convulsivos traços
Do sangue coagulado que nas veias
De súbito estancou.

Que maldição, Senhor, açoita o século!
A morte hedionda, entrechocando os ossos,
Tripudia de júbilo, espreitando
A vítima infeliz. Seu peito cavo
Anseia de alegria. Os que mais alto
Erguem a fronte refulgindo glórias.
— Decrépita manceba - ela escolhe;
E tenta remoçar o amor adusto,
Chupando o sangue que mais puro gira
Em coração de homem.

E assim de um só ímpeto se apaga
Uma vida que rútila brilhara,
Seus raios desferindo a acalentaram
Com seu almo calor as mós do povo!
E assim resvala na solidão perdida
A voz que descantara em lira d'oiro,
Com coração pungido de amarguras,
A cruenta desgraça do poeta
Que morreu com a pátria.

Oh! Que sina tão negra a do poeta!
Escolhido da dor, perlustra a vida,
Rasgando o seio que a desgraça oprime,
A derramar nos cantos inspirados
Essa de vida seiva tão possante
Que pródigo oferece às multidões.
E por trôco o sofrer angustiado
Do maldito de Deus que vaga incerto
No caminhar contínuo.