Página:Ao correr da pena.djvu/271

Wikisource, a biblioteca livre
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa


e esses lindos coloridos, não valem o drama cheio de emoções que se passa em vossa alma aos sons daquela voz harmoniosa.

Há muito tempo não tem o nosso teatro uma noite como a dos Puritanos; a representação correu perfeitamente, e todos os papéis foram mais ou menos bem desempenhados.

Dufrene, o novo tenor, apesar da pouca extensão de sua voz, agradou. É um excelente artista, e canta com muito estilo e muita expressão. Estou certo que, quando estivermos habituados como seu canto, o ouviremos com muito mais prazer do que nas primeiras noites.

Bouché foi perfeitamente no seu pequeno papel. A sua bela voz produziu o melhor efeito no magnífico dueto do segundo ato.

A Charton excedeu-se. Graciosa nas expansões infantis de um amor feliz, sublime no desespero, natural nos desvarios da paixão, foi artista desde o começo ao fim. Havia naquele dia o quer que seja que a animava, que a excitava a obscurecer os seus triunfos passados.

No dia antecedente já tínhamos ouvido a Charton; mas despida de todo este prestigio do teatro, de toda esta fascinação das luzes e da cena. Nem por isso a achamos menos brilhante.

Foi isto domingo na festa de São Francisco. A igreja estava armada com toda a simplicidade. Apenas algumas grinaldas de rosas se destacavam pelas alvas paredes e caiam do teto em festões.

Uma meia obscuridade, empalidecida pelos raios dos círios, realçava o aspecto grave e simples do templo, e dava-lhe uma expressão de recolhimento e de santidade, que não têm ordinariamente as nossas igrejas em dias de festa.

As litanias sagradas e os sons do órgão se confundiam um momento; depois o silêncio se restabelecia, e uma voz harmoniosa erguia ao céu uma prece traduzida nalguma bela melodia que se casava perfeitamente com as palavras do ritual.

Cantou a Casaloni, o Bouché, o Gentil, o Arnaud, e finalmente a Charton.

Receávamos uma desilusão; pensávamos