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Vem, ó flôr do ethereo prado,
Vem, meu anjo, sem receio,
Entornar dentro em meu seio
Teus perfumes, teu olhar:
Por tua alma innocentinha
Minha alma quero trocar.
Mas olha que a noite é negra,
São frios do inverno os gelos;
Eu já sinto em meus cabellos
O sereno a gottejar;
Não erram no céo estrêllas,
Nem ousa o mocho piar.
No meio deste silencio
Ouço o sussurro da fonte,
Que vem descendo do monte
Com sonoro crepitar:
Eu ajunto ás vozes della
O echo do meu cantar.
Mas talvez que adormecida,
Recostada em teu postigo,
Sonhando, virgem, commigo,
Vão meus cantos te acordar…
Adeus, ó virgem, que o Bardo
Não quer teus sonhos turbar.