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Página:Byron-Giaurpoema.pdf/28

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E o derradeiro olhar, limpido e puro,
A gelar-se na palpebra expirante.
Então lhe arrancarás co՚a torpe dextra
A loura côma. Em vivo, conservavas
Della um anel, penhor de terno affecto.
Has de guardar o teu recente espolio,
Qual monumento de perpetua angustia.
Teus dentes, a rangerem convulsivos,
Sempre gottejarão dos teus o sangue.
Volta agora a teu lugubre sepulcro ;
Vai a furia incubar ao pé das Goulas,
Que tremerão de horror, vendo uma larva,
De mais odio credor, do que ellas proprias.

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«Qual desse monge taciturno o nome!
Já divisei essas feições, ha muito,
Em meu paiz natal. Por erma praia
Passando, vi-o estimular á espora
O mais veloz corcel, que bem quadrava
Do cavalleiro á viva impaciencia.
Uma só vez fitei aquelle rosto ;
Elle accusava tão crueis tormentos,
Que logo o conheci, em novo encontro.
Tem a mesma tristeza e até parece
Que nelle impresso está da morte o sello.»
«No proximo verão farei seis annos
Que appareceu aqui: negro peccado,
Certo, vinha purgar. Não quiz dizel-o.
Mas nunca o viram de joelho em terra,
Tomando parte na oração da tarde,
Nem ante o tribunal da penitencia
Jámais á nós se unio. Quando sabiam
A Deus o incenso e os canticos sagrados,
Ficava só, a meditar na cella.
Nenhum de nós lhe sabe a raça, a crença.
Desembarcou de terra musulmana;
Mas á raça de Osman parece extranho.
Nelle eu notára um triste renegado,
Si commungasse o vinho e o pão divino,
Si não fugisse das sagradas aras.
Ganhou do abbade o complascente affecto,
Porque ao mosteiro fez largos favores.