Poder que ella pudesse inda guiar-me
Mesmo que fosse á morte, ou fim mais triste !
Extranhas? Si da sorte aos desherdados,
Que nada esperam do porvir, se véda
Levar em paz de sua angustia o peso ;
Si elles, em phrenesi, o fado accusam,
Si os arrasta delirio passageiro
A՚ pratica de horriveis attentados
Que ajuntaráõ ao soffrimento o crime,—
Um coração, ferido em seus recessos,
Nada receia dos externos golpes.
Decahido de tudo o que é ventura,
Nada lhe importa o fojo, em que se abysma.
Tu me julgas cruel, qual fero abutre ;
Um dos castigos meus é este, ó velho!
Sim! Marcam meu roteiro o sangue, a morte;
Como o rapina fui; deixando a vida,
Sigo da pomba o salutar exemplo.
Morro, sem que outro amor sentido houvesse.
Tome-se esta lição de humildes seres,
Que ao desprezo condemna o orgulho humano.
A ave, que no silvedo amores trina,
O cysne, que desliza á flor do lago,
De uma só companheira ao lado vivem.
Qual criança, inconstante em seus brinquedos,
Chasqueie, embora, um coração voluvel,
Do que mudar não póde. Eu não lhe invejo
O prazer variado e dou-lhe apreço,
Muito menor que ao eysue solitario,
Ou que á belleza seductora e facil,
Que lhe aceitara a fé e a quem trahira.
Eu de vil trahição não sou culpado.
Leïla! Foram teus meus pensamentos,
Virtudes, bens, delictos, infortunios,
Minha esp՚rança no céo, tudo na terra!
Nada o universo tem, que te assemelhe,
Si acaso existe, é para mim inane.
Nem por um mundo contemplar quizera
Outra, que te igualasse e tu não fosses.
Crimes, que a minha juventude mancham,
E este leito feral são disto a prova—
Para outro pensamento é tarde, agora;
Página:Byron-Giaurpoema.pdf/37
Aparência
35