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Página:Byron-Giaurpoema.pdf/39

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Posto que maculado, inda lhe é grato.
Ai de mim! Elle a sorte annunciou-me;
Minha resposta foi sorriso incredulo.
Nessa quadra (oh saudade!) inda eu sorria.
—A prudencia inspirava os seus conselhos,
Que eu recusei ouvir. Mas neste instante,
Aviva-me a memoria os seus dictames,
Que, leviano, comprehender não soube.
Dize-lhe que é cumprido o seu augurio;
E elle se pezará de ser propheta.
Dize-lhe, sim, que si na triste faina.
De uma existencia, de paixões batida,
Eu desleixei recordações tão gratas,
Desse tempo feliz da mocidade,
Nesta hora amarga, em transes de agonia,
Sua memoria abençoar tentára.
Mas fóra offensa a Deus ousar o crime
Eu favor da innocencia erguer um rogo.
De justas arguições não peço excusa.
Mas o seu coração, nobre e sensivel.
Não lhe consente desprezar meu nome.
Pouco me importa a opinião do mundo.
Nem lhe peço, aliás, me poupe lastimas.
Parecerá desdem tão fera supplica.
No esquife de um irmão é bem cabido
De amisade leal masculo pranto.
Entrega lhe este anel, foi delle prenda,
E pinta-lhe... o que estis agora vendo...
—Enfraquecido corpo, alma em ruinas,
Triste despojo, arremessado á praia
Pelo naufragio de paixões revoltas;
Pergaminho apagado, inutil folha.
Aos ventos outomnaes torvelinhando.

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«De visionario não me acoímes, padre !
Não era sonho, não; pois só quem dorme
Póde sonhar. Estava bem desperto.
Eu quizera chorar; mas não podia.
Tinha abrasada a fronte e, convulsiva,
A՚s pulsações do cerebro vibrando.
Aos olhos, como dom precioso e raro,
Apenas uma lagrima implorava.