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Página:Byron-MazeppaLord.pdf/11

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MAZEPPA

E tendo haurido, á flux, delicias alternando,
Tudo, que o mundo tem de bello e seductor,
Nada mais esperando e nada lastimando,
Vivem, sem apprehensões de duvida, ou terror,

(Salvo quanto ao porvir, que os homens consideram
Como dos nervos seus o estado lhes permitte),
Em quanto, do infortunio as victimas esperam
Que os soffrimentos seus attinjam o limite.

Véus, que empanar-lhes vem a vista desvairada
De que enxerguem na morte um bom amigo impedem;
Julgam que lhes será por ella arrebatada
A sua recompensa—o pomo de seu Eden.

O dia de amanhã houvera dado tanto!
Dia longo, em que a luz, serena, irradiára.
Não haveria n՚elle anathema, nem pranto,
E da angustia passada, em pleno, os compensára.

Inicio elle será de longa série de annos,
Divisada atravéz de lagrimas, agora;
Exercer poderão direitos soberanos...
E só ha de fulgir num tumulo essa aurora !?...

 

XVIII

 

Ia baixando o sol. Eu prêso, sempre, á neve
D՚esse pobre animal, immoto, inteiriçado.
Tinham de alli mesclar-se as cinzas nossas, breve;
Precisava da morte o meu olhar nublado.

Pela ultima vez, ao ceu olhos erguendo,
Vi, não longe de mim, um corvo impaciente,
Que, para começar o seu banquete horrendo,
Aguardava meu fim, tenaz, soffregamente.

Voava, vinha ao chão; fazia outros adejos;
De mim se approximava a cada movimento.
Seguia meu olhar seus multiplos voltejos...
E já turvava o ceu crepusculo cinzento.

Tão visinho pousou, que, facil, o matára,
Si me restasse força. Eu fiz ligeiro aceno
Có a mão, que á flor da terra em languidez, baixara
E, de leve, arranhou o saibro do terreno.

Debil som, que é de voz apenas arremêdo,
Com esforço penoso ás fauces arranquei.
Isto bastante foi para metter-lhe medo,
E affastal-o d՚alli... De nada mais eu sei.

Meu sonho extremo foi celeste e clara estrella,
Que, longinqua, attrahiu a minha vista escura.
Raios de vaga luz, alternos, a envolvel-a,
Destacavam-lhe em cheio a divinal figura.

Sahiram da inacção os membros meus tolhidos;
Mas fiquei mergulhado em plena indifferença.
Uma expressão tristonha havia em meus sentidos,
Vertiginosa sim, mas de uma força intensa.

E descahi, de novo, em morna lethargia.
Após... um debil sopro, um leve estremeção,
Paráda nas funcções, deliquio de agonia,
Que o sangue me gelou no peito ao coração;

Mais tarde, um faiscar, que o cerebro me cruza,
Violenta pulsação do peito sobre a arcada,
Um requinte de dôr, que em contorsões se accusa,
Um soluço... um suspiro... e tudo foi... mais nada.

 

XIX

 

Despertei. Onde paro? E՚ mesmo humano aspecto
Este, que vendo estou e sobre mim se pende?
E՚, na realidade, o que me abriga um tecto?
E՚ certo que num leito o corpo meu se estende?

São mesmo olhos mortaes os olhos fulgurantes,
Que me estão a fitar com expressão tão doce?
Vendo-os, fechei os meus. Julguei, breves instantes,
Que effeito do delirio aquella vista fosse.

Moça esvelta, gentil, de longa cabelleira,
Velava-me, sentada ao pé do muro. O raio
De seu olhar me deu a sensação primeira,
Que pude experimentar, após longo desmaio.

Olhos de negra côr, ingenuos, compassivos,
Revelavam por mim angelica bondade.
Fitando-a, convenci-me estar inda entre os vivos,
Não ser ella um phantasma e sim realidade.

A donzella sorriu, quando eu, quebrado o sello,
Que ás palpebras me fôra um véu tardo e molesto,
Algo tentei dizer, mas sem poder fazel-o:
Um dedo aos labios poz, em gracioso gesto.

Recommendava assim que eu me guardasse mudo,
Até que recobrasse a robustez inteira;
Tocou em minha mão e, cuidadosa em tudo,
Almofadas dispoz á minha cabeceira;

Sobre as pontas dos pés andando pela sala,
Da porta se abeirou; volveu mansinho, a chave;
Algumas phrases disse em branda voz... Que fala!
Jamais, jamais ouvi accento, tão suave.

Musica havia até no som dos passos d՚ella.
Chamára. Os que chamou respondem co՚ a mudez.
Dormiam. Retirando, a dextra da donzella
Num singelo mencio, oh que protestos fez!

Dizia esse signal que eu bem seguro estava;
Que podia dispôr de tudo no seu lar;
Que dentro havia alguem; que a volta não tardava.
Sahiu. Triste fiquei de alli a sós ficar.

 

XX

 

Voltou, logo depois, de pai e mãi seguida...
Mas... para que narrar o que me succedeu,
Desde a hora, em que fui restituido á vida
Nesse hospedeiro lar, que em si me recolheu?

Acharam-me no steppe, atado, semi-morto.
Prompto, á proxima choça em braços fui levado.
Acordaram á vida, á força de conforto,
Quem para ser seu rei estava destinado.

Por vingança, um sandeu forjou-me atroz requinte
De angustias. De um corcel ao galopar, sem termo,
Impelliu-me, sangrento e nú e atado, acinte,
Por selvas. Só logrou mudar-me em throno o ermo.

Que homem póde saber a sorte, que lhe cabe?
Ninguem perca o valor. O forte tudo arrosta.
Poderão, amanhã... nossos corceis. Quem sabe?
Beber e apascentar na ribanceira opposta.

Nunca saudei de um rio as aguas, tão contente,
Como as tuas serão, Borysthenes, saudadas,