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CARTAS DE AMOR


meus pais e parentes, às severas leis dêste Reino contra as religiosas… e à tua ingratidão, que me parece a maior de tôdas as desgraças…

Ainda assim eu sinto que os meus remosos não são verdadeiros, e que do íntimo de meu coração quisera ter corrido muito maiores perigos por amor de ti, e provo um funesto prazer de ter arriscado por ti vida e honra.

¿Tudo o que me é mais precioso não devia eu entragá-lo à tua disposição?…

¿E não devo eu ter muita satisfação de o ter empregado como fiz?…

Parece-me até não estar contente, nem das minha mágoas, nem do excesso de meu amor, ainda que, a de mim! não possa, mal pecado, lisonjear-me de estar contente de ti…

Vivo, e como desleal, faço tanto por conservar a vida, quanto perdê-la!…

Morro de vergonha… ¿acaso a minha desesperação existe sòmente nas minhas cartas?…

¿Se eu te amasse com aquele extremo que milhares de vezes te disse, não teria eu já de longo tempo cessado de viver?…

Enganei-te… tens tôda a razão de queixar-te de mim… Ah! ¿porque não te queixas?…

Vi-te partir; nenhumas esperanças posso ter de mais ver-te, e ainda respiro!… É uma traição…

Peço-te dela o perdão.

Mas não mo concedas…

Trata-me rigorosamente.

Não julgues os meus sentimentos assaz veementes…

Sê mais difícil de contentar…