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Embaciam-lhe n'alma o espelho da illusão.
O poeta chora e vê perderem-se esfolhadas
Da verde primavera as flores tão cuidadas;
Rasga, como Jesus, no caminho das dores,
Os lassos pés; o sangue humedece-lhe as flores
Mortas alli, — e a fé, a fé mãe, a fé santa,
Ao vento impuro e máo que as illusões quebranta
Na alma que alli se vae muitas vezes vacilla...

Oh! feliz o que póde, alma alegre e tranquilla,
A esperança vivaz o as illusões floridas,
Atravessar cantando as longas avenidas
Que levam do presente ao secreto porvir!
Feliz esse! Esse póde amar, gozar, sentir,
Viver emfim! A vida é o amor, é a paz,
É a doce illusão e a esperança vivaz;
Não esta do poeta, esta que Deus nos poz
Nem como inutil fardo, antes como um algoz.

O poeta busca sempre o almejado ideal...
Triste e funesto affan! tentativa fatal!
Nesta sede do luz, nesta fome de amor,
O poeta corre á estrella, á brisa, ao mar, á flor;
Quer ver-lhe a luz na luz da estrella peregrina,