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Coisas do meu diario OBLIVION

A cidadezinha onde moro lembra um soldado que fraqueasse em caminho e, não podendo acompanhar o batalhão, à beira da estrada se deixasse ficar, exhausto e só, com olhos saudosos postos na nuvem de poeira erguida além. 

A civilização desviou-se della. O telegrapho não a põe à fala com o resto do mundo, nem as estradas de ferro se lembram de unil-a á rêde por modesto ramalzinho. Subsiste unicamente o débil cordão umbilical do correio. Um estafeta, bifurcado em paciente matungo, todos os dias sóbe e desce o morros, rompe varzeas e corta areaes com a mala postal á garupa, tão magra, porém, que melhor iria sob lombilho, á guisa de pellego.

O mundo esqueceu Oblivion, que já foi rica e lepida, como os homens esqueceram a actris famosa, logo que lhe desbota a mocidade. 
E a sua vida de vovó entrevada sem netos, sem esperança, é humilde e quieta como a do urupê escondido no sombrio dos grotôes. 
Trazem-lhe os jornaes o rumor do mundo, e Oblivion comenta-o com discreto parecer... Mas como os jornaes vêm para somente uma dúzia de pessoas, constituem estas a aristocracia mental da cidade. São "Os Que Sabem", Lembra o primado dos Dez de Veneza, a sabedoria dos Dose de Oblivion. 

Attrahidos pelas terras novas, de feracidade seductora, abandonaram-na seus filhos; só permaneceram ali os que o solo prendia por fundas raízes, os de vontade anemiada, debeis, fakirianos. Esse todos os dias fazem as mesmas cousas, dormem o mesmo somno, sonham os mesmo sonhos, comem as mesmas comidas, comentam os mesmos assumptos, esperam o mesmo correio , gabam a passada prosperidade, lamuriam do presente e pitam - pitam longos cigarrões de palha, matadores do tempo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Entre as originalidades de Oblivion uma pede narrativa: o como sua educação literária. Promovem-na três livros veneraveis, encardidos pelo uso, com as capas sujas, constelladas de pingos de vella - lidos e relídos que foram em longos serões familiares por gerações sucessivas. São elles: la