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Página:Como se deve escrever a história do Brasil.pdf/13

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lugar devemos considerar o indígena brasileiro, em suas manifestações exteriores, corno ente físico, e compará-lo corn os povos vizinhos da mesma raça. O passo imediato nos levará à esfera da alma e da inteligência dêstes homens; a isto se ligam investigações sôbre a extensão de sua atividade espiritual, e corno ela se manifesta por documentos históricos.

Como documento mais geral e mais significativo deve ser considerada a língua dos índios. Pesquisas nesta atualmente tão pouco cultivada esfera não podem jamais ser suficientemente recomendadas, e tanto mais que as línguas americanas não cessam de acharse continuamente em uma certa fusão, de sorte que algumas delas em breve estarão inteiramente extintas. Muito há que dizer sôbre êste objeto; mas como devo supor que poucos historiógrafos brasileiros se ocuparão corn estudos linguísticos, deixo à parte êste assunto; aproveito porém esta ocasião de exprimir o meu desejo que o Instituto Histórico Geográfico Brasileiro designasse alguns linguistas para a redação de dicionários e observações gramaticais sôbre estas línguas, determinando que êstes Srs. fôssern ter corn os mesmos índios. Neste respeito seria muito para desejar que se investigassem especialmente as radicais da língua Tupi e dos seus dialéticos, desde o Guarani, nas margens do Rio da Prata, até o Arino e Guez sôbre o Amazonas: que para tal dicionário brasileiro servisse de rnodêlo o vocabulário que a Imperatriz Catarina mandou esboçar para as línguas Asiáticas, e que afinal e principalmente se coligissem em primeiro lugar todos os vocábulos que se referem a objetos naturais, determinações legais (de direito) ou vestígios de relações sociais.

A língua principal falada outrora pelos índios do Brasil em vastíssima extensão, e entendida ainda em muitas partes, é a língua Geral ou Tupi. E sem dúvida muito significativo que um grande complexo de raças brasileiras entendam êste idioma. Assim como no Peru com as línguas Quichua e Aimará que se estendiam sôbre vastíssimos territórios, aconteceu no Brasil com a língua Tupi; e não podemos duvidar que tôdas as tribos, que nela sabem fazerse inteligíveis, pertençam a um único e grande povo, que sem dúvida possuiu a sua história própria, e que de um estado florescente de civilização, decaiu para o atual estado de degradação e dissolucão, do mesmo modo como o observamos entre os povos ocidentais, que falavam a língua dos Incas, ou o Airnará. Não deve passar inapercebidamente que os Caraíbas nas Guianas e nas Antilhas falavam urna língua, por uma sintaxe e vocabulário parente da língua Tupi; fato êste tanto mais singular, quanto há muitos vestígios de serem os Caraíbas um povo de piratas, que se estendia da Flórida e das Bermudas para o Sul. Assim tornaram-se as investigações sôbre a língua dos aborígenes brasileiros um objeto de interêsse geral, conduzindo a investigações etnográficas, e compreendendo uma grande parte do Novo Mundo.

A língua devem em primeiro lugar ligar-se os estudos sôbre a Mitologia,