as Teogonias e Geogonias das raças brasileiras. Um observador filosófico não deixará de descobrir nos restos de mitos, e no balbuciamento poético, que ainda hoje se encontram vestígios muito significativos de uma perdida filosofia natural, e de um culto ainda enigmático. Uma indagação superficial do culto atual dos índios do Brasil contenta-se em considerá-lo como uma espécie de Chamanismo ou Fetichismo; mas com isto não se dará por satisfeito o historiador filosófico, que dos restos atuais de idéias e cerimônias religiosas conclui para noções anteriores mais puras, e para formas de um culto antigo, do qual os sacrifícios humanos dos prisioneiros, o canibalismo, e numerosos costumes e usos domésticos devem ser considerados como a mais bruta degeneração, e que somente dêste modo tornam-se explicáveis. Pesquisas tais necessàriamente nos levarão para êstes fenômenos pertencentes à esfera de superstições, de virtudes curativas de taumaturgos índios, feiticeiros e curandeiros; e destas passamos a investigações sôbre o saber dos índios relativo a fenômenos da natureza, e de outro lado sôbre o sacerdócio entre êles e todas as relações do Pagé (sacerdote), curandeiro e chefe para com a comunidade social.
Mais de um passo nos conduzirá para os vestígios de símbolos e tradições de direito: lançaremos uma vista d'olhos geral sôbre as relacoes sociais e jurídicas destes homens, como membros de uma só tribo, e as que existem entre as tribos diversas; e com isso encerra-se o círculo das investigações etnográficas que o historiador deverá fazer.
E inegável que o quadro de rôdas estas relações será tanto mais perfeito, será tanto mais rico em resultados históricos e filosóficos, quanto mais afoito e desprevenido o historiador lançar suas vistas sôbre os aborígenes da América em seu mais extenso esparsimento, quanto com maior diligência comparar os seus materiais brasileiros com os dos outros povos do Novo Mundo.
A coordennação e paralelismo de tôdas as Geogonias, Teogonias, e tradições de dilúvios gerais, e outras grandes catástrofes da natureza de todos os mitos, usanças legais, usos e costumes dos aborígenes americanos em geral, seria uma das mais belas e gratas tarefas do historiador filosófico e etnógrafo, e se uma história do Brasil não oferecesse senão esta introdução, ela devia ser saudada com entusiasmo por todos os literatos. Desde a obra de Lafitau o material aumentou de· um modo tã espantoso que o autor havía de ser recompensado tanto pelos encantos como pela abundância da matéria. Mas essa mesma abundância de materiais exige a mais severa crítica, e uma multidão de alegações extravagantes, de fatos inteiramente falsos, (como por exemplo foram espalhados pela obra escandalosa de Mr. de Paw), devia ser excluídos de uma vez, e estabelecida a verdadeira base e valor histórico e etnográfico dos povos americanos.
Como um assunto de suma importância para o etnógrafo notamse as