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o livrasse, que o seu marido soubesse. Mas o que ella queria era que o marido não desconfiasse que ella tinha sido fadada.

(Coimbra).




LXVI


O BURRO DO AZEITEIRO

Dois estudantes encontráram n'uma estrada um azeiteiro que ia guiando um burro, carregado de bilhas de azeite. Os estudantes que estavam sem dinheiro, ficaram muito contentes com aquelle encontro e combináram furtar o burro do azeiteiro para o venderem; e emquanto o pobre homem seguia o seu caminho muito socegado da sua vida, levando pela mão a arreata do jumento, um d'elles tirou a cabeçada do burro e collocou-a no pescoço, e o outro escapou-se com o burro e a carga. O que ficou em logar do animal, parou fazendo com que o azeiteiro olhasse para traz. Qual não foi, porem, o espanto d'este vendo um homem em vez do burro!…

O estudante disse para elle com voz muito terna: «Ah! senhor, quanto lhe agradeço ter-me dado uma pancada na moleirinha! quebrou-me o encanto que durante tantos annos me fez jazer burro!…» O azeiteiro tirando o chapeo, disse-me muito humildemente: «Perdi no senhor, como burro, o meu ganha-pão; mas paciencia! Como homem que agora é, peço-lhe muitos perdões… por tel-o maltratado tanta vez; mas que quer?… o senhor fazia-me ás vezes desesperar com as suas birras, e eu não era senhor de mim!»