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vinho. Elle d'isto não quiz dizer nada á mulher; o que achou mas prompto foi um sacco de farinha de cinco alqueires que deitou em cima do vinho para a mulher não o vêr entornado. E a mulher que viu isto ficou lastimando as suas desgraças que lhe succediam em casa.

(Oliveira do Douro).





LXXI


A BEATA E O SENHOR DOS PASSOS


Uma beata tinha por costume ir todos as noites rezar a uma capella onde estava um Senhor dos Passos, e um S. Francisco; e dizia: «Ai, meu senhor! quem me dera receber-vos em minha casa; mas eu não mereço essa graça.» Por baixo da casa da beata morava um sapateiro, e vendo-a sair todas as noites foi espreitar para onde ella ia, e viu-a a orar ao Senhor dos Passos. O sapateiro calou-se muito calado, e no dia seguinte pediu á creada da beata, que lhe levasse lá o livro da missa da ama. A creada levou-lhe o livro; e o sapateiro sem que ella visse, escreveu-lhe n'uma folha: «O teu Deus lá vae á noite.» Quando a beata abriu o livro e leu aquellas palavras, ficou muito contente, e disse á creada que era preciso preparar muito bem a casa, porque á noite esperava pela visita de Nosso Senhor. Forraram a casa com damascos, e encheram o quarto da beata de flores; a creada foi buscar muito doce, e licores, para o Senhor. Ora o sapateiro vestiu-se de Senhor dos Passos, e o aprendiz de S. Francisco, e á noite foram bater á porta da beata; e ella como tinha mandado deitar a