Página:Contos Populares Portuguezes colligidos por F. Adolpho Coelho.pdf/27

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XXIII

de Beaumont[1], e traduzido mais de uma vez em portuguez, que nada ha mais natural do que pensar que a forma que publicamos deriva d'essa fonte litteraria; a concordancia é sobretudo muito particular na primeira parte do conto, até que Belle vae habitar o palacio do monstro; no resto ha differenças apparentemente insignificantes e que se poderiam attribuir aos caprichos da imaginação dos narradores portuguezes, se a comparação não nos mostrasse o seu valor tradicional. Na versão de Madame de Beaumont, Belle familiarisa-se com o monstro que a tracta magnificamente e lhe pergunta sempre antes de se ir deitar-se ella quer casar com elle; ella responde que não, e o monstro lança um terrivel suspiro. Belle, um dia vê n'um espelho que seu pae estava doente de pena; exprime ao monstro o desejo de o vêr; elle consente, mas faz-lhe prometter que voltará ao fim de oito dias; diz-lhe quando ella quizer voltar que ponha ao deitar-se o seu annel em cima da mesa. Quando Belle acordou achou-se em casa de seu pae. As irmãs tinham casado, mas eram desgraçadas; vendo a irmã vestida como uma princeza, tiveram-lhe inveja e tractaram de a demorar mais dos oito dias, o que conseguiram, fingindo-se muito penalisadas pela partida d'ella. Ao fim de dez dias voltou Belle ao palacio, mas o monstro não apparecia; ella correu a um sitio onde o vira em sonho e achou-o sem sentidos; lançou-se sem horror sobre o corpo do monstro; deitou-se agua na cabeça, e elle voltando a si diz-lhe que de pena de a ter perdido resolvera matar-se á fome. Belle diz-lhe que elle ha de viver e ser seu esposo; então o monstro desapparece e em seu logar fica um bello principe, pois o seu encanto devia acabar quando uma donzella o acceitasse para esposo. As más irmãs são convertidas em estatuas. O final da

  1. Contes moraux pour l'instruction de la jeunesse, por Madame Le Prince de Beaumont, extraits de ses Ouvrages et publiés pour la première fois en forme de recueil. Paris, chez Barba, 1806, 3 vol. 8.º.